Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Junho 2026) por fr. José Nunes, op


14 DE JUNHO - 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

 

No livro do Êxodo, lemos hoje que Deus fez uma aliança com um povo, o povo de Israel, o povo bíblico. Essa aliança incluíu a libertação da escravidão do Egipto e, agora, um pacto de amizade selado por uns tantos mandamentos e uma missão: Israel é chamado a ser «nação santa, reino de sacerdotes», isto é, tem a missão importantíssima de viver como Deus manda e de ser luz e testemunha diante de todas as nações. Esta aliança, portanto, não significa que Deus apenas se alia a Israel e não é amigo dos outros povos. Nada disso, embora algumas passagens bíblicas do Antigo Testamento e algumas tendências judaicas (até aos dias de hoje) façam essa interpretação exclusivista. Deus criou todos os povos e é amigos de todos os seres humanos; a revelação particular ao povo bíblico não é mais do que uma pedagogia de comunicação, um dar-se a conhecer a um povo concreto para ele o anunciar depois a todos os outros.

Na carta aos romanos, Paulo declara que Jesus viveu e morreu para nos salvar, apesar de nós sermos pecadores e, porventura, não o merecermos… Os contemporâneos de Jesus eram pecadores e nós também pecamos; Jesus salvou os pecadores e continua a salvar. É verdade que nos pede conversão e santidade de vida, mas não nos condena; perdoa-nos e salva-nos em todos os sentidos.

Na passagem do evangelho de Mateus, temos o envio dos discípulos a continuar a missão do próprio Jesus: anunciar o Reino, a presença amiga de Deus que salva com palavras maravilhosas e com obras poderosas (por isso a missão da Igreja tem de combinar sempre a palavra com a acção libertadora e o testemunho de vida). E o final do texto é muito bonito: «recebestes de graça, dai de graça». Convite a viver na gratuidade e não no cálculo, na relação comercial de troca e lucro: recebemos gratuitamente tantos dons de Deus, então ponhamo-nos também gratuitamente ao serviço uns dos outros. Apraz-me lembrar uns versos da grande poetisa e autêntica mística cristã que foi Sophia de Mello Breyner: «Porque os outros se compram e se vendem/e os seus gestos dão sempre dividendo/porque os outros calculam mas tu não, tu não».

 

 

 

12/06/2026

Artigo do fr. Bento Domingues, op


A CONVERSÃO DE JESUS E A NOSSA CONVERSÃO

  

1. Já abordei, nestas crónicas, o significado de um antigo e belo slogan, Ecclesia semper reformanda. Não renego essas crónicas. No entanto, fui-me dando conta que não basta dizer que a Igreja deve estar sempre em conversão porque, sem querer, continua a fazer-se da Igreja o centro da fé cristã, esquecendo que o centro da Igreja é Jesus Cristo com todos os seres humanos. Centrou-se a Cristologia no Mistério Pascal, esquecendo também que Jesus de Nazaré não nasceu adulto. O menino crescia, tornava-se robusto, enchia-se de sabedoria e a graça de Deus estava com ele[1]. Sabemos que José, seu pai, era um tekton, um carpinteiro, um artesão, e era normal que o filho aprendesse com ele e o ajudasse.

Jesus era judeu, mas um judeu inquieto com a sua própria religião, na qual, havia várias tendências e grupos. É comum lermos nos Evangelhos os confrontos com fariseus e saduceus, por exemplo. Além destas tendências, havia outros movimentos ou comunidades que procuravam a reforma do judaísmo mais oficial. Não vou entrar na designação desses movimentos ou comunidades reformistas. A descoberta de Qumran, em 1947, e o estudo dos seus manuscritos documentam uma dessas tendências. Não sabemos que relações teve Jesus com essa e outras experiências religiosas, mas «o nome de Jesus, em particular, nunca é mencionado em nenhum texto, quer seja de modo velado ou codificado»[2].

João Baptista, como o nome indica, atraía ao rio Jordão judeus que queriam uma verdadeira reforma da religião judaica. O próprio Jesus, como dizem todos os Evangelhos, calcula-se que, pelos seus 28-30 anos, foi baptizado por ele[3]. Entrando em oração, aconteceu algo extraordinário. Sob a acção do Espírito Santo, escuta a voz de Deus que o proclama como Filho: és o meu Filho bem-amado![4].

Partiu, então, para o deserto à procura de um novo caminho. Durante 40 dias, sentiu-se tentado pelo espírito do mal, o diabo, que o deixou até nova ocasião.

2. Não sabemos o que aconteceu depois, mas segundo S. Lucas, numa ida a Nazaré, onde tinha sido criado – ficará para sempre conhecido como o Nazareno –, como era seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Leu um belo e acutilante texto do profeta Isaías: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano da graça do Senhor.» Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir»[5].

Então, porque é que os seus conterrâneos se irritaram a ponto de o quererem matar? Foram-se dando conta que Jesus tinha atraiçoado o texto sagrado, ao ler apenas o ano da graça de Deus e omitindo o dia da vingança do nosso Deus. Isto era intragável para qualquer judeu.

Por outro lado, S. Mateus narra um acontecimento insólito que não pode ser passado por alto e é o texto proclamado na Missa deste Domingo. Jesus chama colaboradores com o seguinte mandato: não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos; ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel[6]. Este programa nem cristão parece. Onde está o seu universalismo? É uma missão, como diz o texto, que se mantem nos limites da renovação do judaísmo.

O próprio Jesus é interpelado por uma estrangeira[7], por uma não judia, que lhe pede a cura da filha. Jesus faz de conta que não tem nada que se meter nesse assunto e a mulher continua a gritar. Os discípulos pedem-lhe que a despeça, mas Ele responde: não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Não fica bem tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos. A mulher não desarma e responde-lhe: Isso é verdade Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos! Perante esta situação, Jesus exclama: Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como queres. Esta narrativa ajuda a perceber a conversão de Jesus à sua missão universal.

3. É uma narrativa do passado, mas tem um significado e uma actualidade que importa acolher no nosso presente aberto ao futuro.

A Magnifica Humanitas (MH) está a ser recebida e acolhida, de forma inesperada, pelos meios de comunicação de referência, em muitos países[8]. Leão XIV continua a surpreender-nos com as suas mensagens dirigidas a toda a humanidade, à magnífica humanidade muito ofendida e ameaçada, nas suas diversas expressões.

Na passada semana, o Papa realizou a sua 4ª viagem apostólica. Cada uma teve o seu contexto cultural e espiritual, mas sempre por causa da defesa dos direitos de todos os seres humanos.

Em Espanha, perante os membros do Congresso dos Deputados e do Senado, Leão XIV foi muito explícito: «O mundo atravessa uma profunda crise espiritual e cultural, que se manifesta em múltiplas formas de violência, polarização e desconfiança mútua. Neste contexto, a paz surge como uma aspiração política e, mais ainda, como uma verdadeira exigência moral. (…) Qualquer guerra constitui, em última análise, uma dolorosa derrota da capacidade de negociar e também daquela consciência comum da humanidade que reconhece os laços de justiça entre as nações. As armas podem impor um silêncio temporário, mas nunca poderão edificar uma paz autêntica e duradoura».

Na MH, «Leão XIV descreve este fenómeno com uma precisão que surpreende num documento pontifício: "A opinião pública está orientada e habituada a narrativas mediáticas polarizadas, frequentemente amplificadas por algoritmos que valorizam o confronto e a oposição. Estamos também a assistir a uma preocupante perda de memória histórica." Uma civilização que perde a memória histórica perde a capacidade de reconhecer os padrões que conduziram às catástrofes do passado – e torna-se, por isso, vulnerável à sua repetição»[9].

Perante o Congresso, o Papa lançou a interrogação: «Pode considerar-se plenamente justa uma comunidade que deixa na sombra a criança ainda não nascida, o idoso, o doente, quem sofre em silêncio ou quem depende inteiramente do cuidado dos outros?» E sustentou que a grandeza moral de uma nação manifesta-se, sobretudo, «na sua capacidade de acompanhar, proteger e amar as vidas que se encontram em maior situação de fragilidade. A defesa da vida humana não é uma questão parcial nem um interesse confessional: é um objetivo da civilização».

Leão XIV mostra-se apreensivo com o desenvolvimento do poder da IA. Pertence-nos trabalhar para que não se torne um poder de dominação. Que seja para ajudar e não para substituir o ser humano.

Será a nossa maior conversão!

 

Fr. Bento Domingues in Público, 14/6/2026 

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[1] Lc 2, 40

[2] Hans Küng, O Cristianismo, Temas e Debates, 2016

[3] Jo 1, 19-34; Mt 3, 13-17; Mc 1, 9-11; Lc 3,21-22

[4] Cf. Frederico Lourenço, Espírito Santo, blog

[5] Lc 4, 16-30

[6] Mt 10, 5-6

[7] Mt 15, 21-28

[8] Cf. 7Margens, Eduardo Jorge Madureira, 28.05.2026

[9] Domingos Caeiro, Público, 10.06.2026

14/06/2026

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