Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Abr. 2026) por fr. José Nunes, op


19 DE ABRIL - 3º DOMINGO DA PÁSCOA - ANO A

 

Na primeira leitura, dos Actos dos Apóstolos, temos um dos primeiros discursos missionários da história da Igreja, feito por Pedro. E é um discurso anunciador de um Deus trinitário: Deus Pai enviou Jesus ao mundo; Este deu testemunho do Pai com palavras e obras maravilhosas; os homens não O receberam bem e mataram-no; Deus Pai ressuscitou-O e agora envia o Espírito Santo, no qual e pelo qual vivem os cristãos. Este é então um modo de integrar, explicar e superar a enorme dificuldade em aceitar o escândalo da morte de Jesus – o justo por excelência.

Na segunda leitura continuamos com o protagonismo de Pedro. Diz ele que nós invocamos a Deus como Pai porque Jesus nos revelou isso mesmo. O que significa algo de importante: os cristãos sabem que a humanidade inteira está chamada a ser uma só família de irmãos e irmãs, porque filhos e filhas do mesmo Pai, que é Deus. Claro que os não cristãos também são filhos de Deus, só que não o sabem e por isso não chamam a Deus por Pai. A missão da Igreja é justamente revelar esta grande e estupenda novidade ao mundo. Novidade que tem ainda esta sequência: Deus é Pai e um Pai que nos ama. E é o seu infinito amor que nos salva (tal como o amor infinito de Jesus até à morte), a salvação não é passível de compra com dinheiro ou metal precioso, nem sequer com boas obras da nossa parte. A salvação é dom gratuito de Deus Nosso Pai e Seu Filho Jesus, que em nós derramam o Espírito.

O trecho do evangelho de hoje narra-nos o episódio dos dois discípulos de Emaús. Um primeiro ensinamento do texto é evidente: Jesus caminha sempre ao nosso lado mas nós nem sempre reconhecemos tal presença. E um segundo ensinamento é este: Jesus está ressuscitado-vivo entre nós e alimenta-nos quer com a Sua Palavra (explicava as Escrituras aos discípulos de Emaús) quer com o seu Corpo e Sangue (partiu-lhes o pão à mesa quando entraram em casa). Como não ver aqui, uma vez mais, uma catequese eucarística? De facto, na eucaristia somos alimentados em duas mesas distintas: a mesa da palavra (com as leituras da Bíblia) e a mesa do altar (com a comunhão do Corpo e Sangue de Jesus).

17/04/2026

Artigo do fr. Bento Domingues, op


MISTÉRIOS DA PÁSCOA

  

1. Páscoa, em hebraico, diz-se Pessach que significa passagem. Refere-se à chamada libertação dos israelitas da escravidão no Egipto. Continua a significar a passagem da escravidão para a liberdade.

Segundo os textos do Novo Testamento, vivemos de uma referência fundamental que é Jesus, o Cristo. O que lhe aconteceu foi organizado, sob o ponto de vista litúrgico, na chamada Semana Santa. Começa com o Domingo de Ramos. Quinta, Sexta e Sábado constituem o Tríduo Pascal, o tempo mais intenso da semana.

Não se deve confundir o fim de semana laico que, agora, envolve sábado e Domingo. Nessa perspectiva, o começo da semana é segunda-feira. Do ponto de vista cristão, Domingo é o primeiro dia da semana, dia do Senhor, a Páscoa semanal.

A Páscoa ritual teve evoluções muito diferentes de local para local. O que importa é perceber o sentido desse ritual. Segundo o Evangelho de S. João, durante a Ceia, Jesus levantou-se, tomou uma toalha e lavou os pés aos discípulos. Depois, voltou à mesa[1]. Com este gesto, dava uma resposta radical à discussão entre eles: quem seria o maior?. Eles não entenderam. Precisaram de uma conversão radical. A Igreja só pode ser fiel, vivendo em permanente conversão ao serviço dos mais abandonados. Passaram 2 000 anos. É misterioso que os seres humanos gastem na guerra o que deveria ser gasto na promoção da paz, na fraternidade universal.

As mulheres entraram muito cedo e de vários modos na vida de Jesus de Nazaré. Hoje, é quase impossível imaginar a importância desse fenómeno. Seria necessário estudar o lugar da mulher na cultura religiosa do tempo de Jesus, para perceber o alcance da revolução que ele desencadeou. Vivemos numa época na qual a mulher tem um papel cada vez mais activo na vida e na liderança das sociedades, mas a sua situação na Igreja é um anacronismo que, esperamos, os anos se encarregarão de vencer.

De facto, a situação do estatuto da mulher, ainda tem muitas lacunas, mas segundo notícias recentes cresce, cada vez mais, na Europa, e nomeadamente em Portugal, o número de mulheres cientistas e engenheiras[2]. É importante que, na Igreja, não se esqueça este fenómeno, para não negar a sua mais antiga tradição: «todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé;     pois todos os que fostes baptizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a fé.     Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus»[3].

É verdade que também a exegese feminista conquistou, no âmbito das abordagens contextuais, um lugar, ainda não ao sol, mas à sombra, no documento da Comissão Pontifícia Bíblica de 1993, (A interpretação da Bíblia na Igreja).

O que espanta é a lentidão em reconhecer o que parece claro no Novo Testamento e que, ainda hoje, muitos não querem ver o que estão a ver, devido à resistência de uma cultura secular “antifeminista” que nos torna cegos.

No Evangelho de S. Lucas[4], depois da cena escandalosa da mulher que surpreendeu, tocou e beijou Jesus, na casa de um fariseu, onde ele estava a jantar – e para onde ela não tinha sido convidada –, são as mulheres que surgem em grupo, de uma forma estranha e ambígua. Vale a pena transcrever o texto: depois disso, ele andava por cidades e aldeias, pregando e anunciando a boa nova do reino de Deus. Os Doze acompanhavam-no, assim como algumas mulheres: Maria, chamada Madalena, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes, Suzana e várias outras, que os serviam com os seus bens. Iremos encontrá-las depois da Ressurreição dedicadas a converter, muito a custo, os Apóstolos que lhes não davam crédito[5]. São elas as mulheres da Páscoa cristã.

O grande historiador judeu, Flávio Josefo, nas Antiguidades Judaicas, afirma, por duas vezes, que «o testemunho das mulheres não deve ser aceite por causa da fragilidade e presunção do seu sexo». Noutra passagem, com outras palavras, repete a mesma ideia: «das mulheres não se pode aceitar nada como certo, por causa da ligeireza e temeridade do seu sexo».

2. Um outro judeu, Jesus de Nazaré, parece que estava apostado em atirar pelos ares, costumes e ideias, que perpetuavam a marginalização do testemunho das mulheres. A opção deste Nazareno era de um atrevimento escandaloso, ao fazer delas testemunhas da sua Vida, da sua Paixão, da Ressurreição e do Pentecostes.

É certo que começam a aparecer, no Evangelho de S. Lucas, em grupo, mas de uma forma sorrateira e como que, apenas, financiadoras do novo projecto. Dá a ideia de que foram conquistando terreno até ao momento extremo de tornarem o futuro do movimento cristão dependente delas. Não me parece nada que tenha sido assim, embora não tenha espaço para o demonstrar.

As narrativas do Novo Testamento, aquilo a que chamamos os Evangelhos, são fruto de várias tradições, de várias comunidades, de tempos e culturas diferentes. O que espanta é que sendo textos escritos por homens, também eles marcados pela mentalidade reflectida por Flávio Josefo, os seus escritos testemunham uma presença impressionante de mulheres em torno de Jesus e nas Igrejas nascentes.

Podemos e devemos imaginar é o que deve ter sido a presença activa das mulheres, em todo o percurso de Jesus, para ter resistido ao aperto cultural e religioso do seu tempo.

3. Pertence aos exegetas bíblicos[6] continuar a analisar, com todos os métodos de que dispõem, as narrativas sobre o túmulo vazio e as aparições do Ressuscitado. Essas narrativas coincidem em algo essencial: A morte não saiu vencedora. Jesus está vivo e para sempre; é o mesmo, embora já não da mesma maneira. Aos discípulos/as pede que sejam testemunhas dessa esperança, essa memória de futuro.

Não se trata de nada que se possa provar por qualquer das ciências que existem. É de outra ordem. A fé, como diz o filósofo Wittengstein, é fé naquilo de que necessita o meu coração, a minha alma e não a minha inteligência especulativa. Pois é a minha alma com as suas paixões, por assim dizer, com a sua carne e sangue, que tem de ser salva e não a minha razão abstrata. Só o amor pode acreditar na Ressurreição.

O espantoso capítulo 20 do Evangelho de S. João conta que uma mulher, Madalena, liberta e apaixonada, não largou Jesus nem na vida, nem no vazio da morte, nem no túmulo. Continuou a procurá-lo. Não o encontrou, mas foi encontrada por Aquele que sabia o seu nome. A sua recompensa foram novos trabalhos, uma encomenda directa do Ressuscitado: «vai a meus irmãos e diz-lhes: subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus».

Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: vi o Senhor e as coisas que Ele lhe disse.

Porque impedir as mulheres da Páscoa de realizarem a sua missão apostólica na vida da Igreja ao serviço da transformação do mundo?

Que a celebração da Ressurreição de Cristo nos ajude a procurar os bons caminhos para vencer as raízes dos ódios que ensanguentam a terra.


Fr. Bento Domingues in Público, 5/4/2026 

_____________ [1] Cf. Jo 13 [2] Cf. E Rev. do Expresso, 20.03.2026, pp. 5-6 [3] Gal 3, 26-28 [4] Lc 7, 36-50. 8, 1-3 [5] Lc 24, 9-11 [6] Por ex.: A. Cunha de Oliveira, Jesus de Nazaré e as Mulheres, Instituto Açoriano de Cultura, 2011
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