Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Jan. 2026) por fr. José Nunes, op


25 DE JANEIRO - 3º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

 

A Bíblia pode ser sempre lida a vários níveis e interpretada a partir dos tempos e lugares onde é proclamada e meditada. Vem isto a propósito do versículo do trecho de Isaías hoje: «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz». Esta frase é, em primeiro lugar, uma mensagem de esperança do profeta Isaías para o seu tempo (sec. VIII a.C.), quando o reino de Israel fora invadido pelos assírios e os tempos eram de confusão, violência, trevas. Mas todos nos recordamos que esta frase nos aparece no tempo do Natal e, além disso, nos aparece no evangelho de hoje: também no tempo de Jesus as pessoas andavam nas trevas, na tristeza, na opressão política estrangeira, com problemas, com doenças, etc. E Jesus veio como verdadeira LUZ para toda a humanidade! E Ele é Luz não só para a humanidade de há dois mil anos, mas também para nós hoje, nós que vivemos tempos de atentados terroristas, injustiças, mortes de refugiados, guerras, ódios, etc. De facto, se nos guiássemos pela luz de Jesus e do seu evangelho, como seria diferente o mundo e bela a vida de todos nós…

Na segunda leitura, S.Paulo, estando em Éfeso e recebendo notícias desagradáveis da cidade de Corinto, escreve veementemente contra as imoralidades que ali ocorriam (mesmo dentro da comunidade cristã) e contra as divisões entre os discípulos de Cristo, os quais formavam uma espécie de partidos que se opunham entre eles. Este apelo à unidade foi importante naquele tempo e lugar, mas é-o igualmente hoje: a unidade é muito importante para ser vivida nas nossas famílias, nas nossas comunidades e/ou paróquias, na Igreja em geral (e daí o rezarmos pelo movimento ecuménico, para mais neste dia que se situa dentro da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos – todos os anos entre 18 e 25 de Janeiro).

Quanto ao evangelho, temos aqui o início da vida pública de Jesus, segundo a perspectiva e o texto de S.Mateus (cada evangelista tem um começo diferente para a actividade de Jesus). Jesus tem uma missão: pregar o reino de Deus. E que significa isso? Significa ensinar a viver com belas palavras e pensamentos profundos, significa curar doenças e realizar obras poderosas, significa rezar em comunidade nas sinagogas. E essa missão é imediatamente partilhada com outros: Jesus desafia dois pares de irmãos, pescadores de peixes, a tornarem-se «pescadores de homens», e tal missão confiada aos apóstolos é a missão da Igreja em qualquer tempo e lugar: exactamente à maneira de Jesus, vivendo em oração (liturgia), falando a mensagem da fraternidade ao mundo (evangelização), tratando dos problemas concretos da vida das pessoas (acção socio-caritativa).

19/01/2026

Artigo do fr. Bento Domingues, op


 NO MEIO DAS TEMPESTADES

  

1. Nos dias 7 e 8 deste mês, realizou-se o primeiro Consistório, convocado pelo Papa Leão XIV. Que fazer para que o Consistório não seja só a voz dos cardeais? É fundamental que, nesta instituição, estejam também as vozes de leigos, mulheres e homens. Na Igreja, segundo o Vaticano II, a palavra não pertence, apenas, à hierarquia. Não será um Consistório, que exclui representantes de todas as componentes da Igreja, uma traição à própria Igreja sinodal?

Espera-se que, no futuro, o governo da Igreja nasça de toda a Igreja, Povo de Deus. A noção de caminhar juntos – Igreja sinodal – é incompatível com o sistema que exclui os leigos, mulheres e homens. Os próprios Bispos sem os leigos não são bispos. Neste ponto, não deve ser esquecida a palavra de Santo Agostinho: convosco sou cristão, para vós sou bispo.

Um erro, por excesso ou por defeito nesta matéria, destrói aquilo que se julgava já adquirido. Com o Papa Francisco, foram desencadeados processos para que, em nome da memória, não se trave o presente e o futuro. O tempo da Igreja pode ser entendido como já, mas ainda não.

É uma ilusão pensar que se abrem caminhos definitivos. Temos de ter em conta o essencial, o Querigma, o primeiro anúncio do Evangelho, para não nos perdermos em regras, numa floresta de assuntos secundários, como acontece muitas vezes. A letra mata, o Espírito vivifica[1]. Como diz S. Tomás de Aquino, o que há de essencial no Novo Testamento é a graça do Espírito Santo, tudo o resto é secundário. É esse Espírito que abre o diálogo entre as Igrejas, entre as religiões e entre os problemas da sociedade actual[2]. Nunca perder de vista a correlação que deve existir entre a vida humana e a vida cristã. Como diz Hélder Câmara, Põe o ouvido no chão/ e interpreta os rumores à volta.

A perspectiva que deve prevalecer é o caminho que já foi feito e o que falta percorrer. Leão XIV mostra-se muito atento à agitação do mundo actual, inclusive da própria Igreja. No dizer de Timothy Radcliffe, «Não devemos ter medo. Nós também vivemos em tempos de tempestades terríveis, marcados pela escalada da violência, o crime armado, a guerra. (…) Sem ignorar os problemas internos da Igreja, a própria Igreja está a ser abalada pelas suas próprias tempestades»[3].

As catequeses deste Papa, das quartas-feiras de 2026, não são apenas para não perder a memória e não deixar que a Igreja contraia a doença de Alzheimer, mas também para não perder o sonho dos novos Céus e da nova Terra. É no presente que vivemos, abrindo o futuro.

2. O Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé tem a responsabilidade de ajudar a abrir caminhos, de alargar as perspectivas teológicas, de estimular as iniciativas da cultura da Fé. Deve, por isso, resistir à tentação de querer ser o único que, na Igreja, pensa que tem o exclusivo da teologia ortodoxa. Já conhecemos períodos que foram um travão à criatividade.

No início do Consistório, o Cardeal Víctor Manuel Fernández, perante o Papa Leão XIV e o Colégio Cardinalício, apresentou a exortação programática de Francisco – Evangelii Gaudium – como um desafio «que não pode ser enterrado» e como a chave hermenêutica para o actual impulso sinodal e missionário: «Não se trata de uma antiga opção pastoral que possa ser substituída por outra», mas sim de uma maneira de conceber toda a vida da Igreja a partir da perspectiva do anúncio do Evangelho.

Este Cardeal, bem diferente de outros de má memória, recorda as três motivações espirituais propostas na Evangelii Gaudium e que «continuam relevantes hoje»:

 a). Renovar a experiência de não conseguir viver sem o Senhor Jesus, sem a sua amizade e a sua presença viva. Ele é a minha rocha, o meu tesouro, a minha vida, a minha esperança. b). Renovar a paixão pelo povo, o prazer de estar com o povo, a decisão de sofrer e caminhar com ele. c) A convicção de fé de que a nossa dedicação à proclamação do Evangelho sempre dá frutos, além do que vemos, além do que podemos verificar… sem pretender saber como, onde ou quando.

«Diante dos grandes desafios do mundo e da Igreja, podemos sentir que temos pouco a oferecer. O que podemos dizer ou fazer que realmente faça a diferença? No entanto, com a graça de Deus, o nosso pouco será mais do que suficiente. Não endureçamos os nossos corações, mas abramo-los aos dons imensuráveis ​​de Deus, que nos concede graça ilimitada se abrirmos as nossas mãos e os nossos ouvidos para Ele e para os outros»[4].

A meditação de Radcliffe serviu como um apelo à unidade, ao discernimento e à acção missionária, convidando os cardeais a não se esconderem, mas a navegarem nas tempestades actuais, centrados no Evangelho e na pessoa de Cristo, mesmo perante as suas próprias divisões e desafios.

3. Estamos em plena Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Recordemos: o Papa Leão XIII (1810-1903) tinha pensado promover uma novena pela unidade dos cristãos, aproveitando a semana que vai do dia da Ascensão à festa de Pentecostes. Mais tarde, a ideia foi muito divulgada por Paul Wattson (1863-1940), um anglicano que se tornou católico romano. A proposta de data feita por Wattson era de 18 de Janeiro (festa da cátedra de S. Pedro em Roma) a 25 de Janeiro (festa de S. Paulo). Estariam assim representados, nos dois apóstolos, estilos diferentes de vivência cristã (1908). Mas, de acordo com a mentalidade católica da época, pensava-se em unidade como retorno de todos os cristãos à Igreja com sede em Roma. Como era de esperar, tal proposta não foi bem aceite por ortodoxos e protestantes. Em 1926, o movimento Fé e Constituição, que mais tarde esteve na origem da formação do Conselho Mundial de Igrejas, lançou um apelo para a realização de uma Semana de Oração pela Unidade, a ser feita nos dias que antecedem a festa de Pentecostes.

Um grande impulso veio do padre católico francês Paul Couturier (1881-1953), a partir de 1935. Mas desta vez, a proposta mostrava uma abertura da parte católica: não se tratava de um retorno ao catolicismo, mas da reunião fraterna de Igrejas, cada uma com a sua identidade. Dizia: «Que chegue a unidade do Reino de Deus, tal como Cristo a quer e pelos meios que ele quiser!»  O Movimento Ecuménico, com o Vaticano II (1962-1965), tornou-se um caminho de reforma da Igreja, em diálogo com todos os cristãos e aberta a toda a Humanidade. O Papa Francisco compreendeu a dimensão universal deste movimento: Fratelli Tutti.

«Não haverá paz entre as nações, se não existir paz entre as religiões; não haverá paz entre as religiões, se não existir diálogo entre as religiões; não haverá diálogo entre as religiões, se não existirem padrões éticos globais; o nosso planeta não irá sobreviver se não houver um ethos global, uma ética para o mundo inteiro»[5].

Fora do diálogo não há salvação.

   

Fr. Bento Domingues in Público, 25/1/2026     _____________
[1] 2 Coríntios 3, 6 [2] Frei Bento Domingues, O.P., Fora do Diálogo não há Salvação, Temas e Debates, 2024 [3] Timothy Radcliff, no início do Consistório: Pedro não deve enfrentar a tempestade sozinho. [4] Timothy Radcliff, ao concluir a sua intervenção, no início do Consistório [5] Hans Küng (1928-2021)
25/01/2026

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