Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Abr. 2026) por fr. José Nunes, op


5 DE ABRIL- DOMINGO DE PÁSCOA - ANO A

 

Todos os anos os cristãos se reúnem para fazer a grande celebração do Tríduo pascal, do Mistério pascal. Sucede assim com todas as festas do calendário litúrgico, mas de igual modo como também celebramos os nossos aniversários de nascimento, casamento, dia mundial da paz ou dia dos namorados…

Mas porquê a Páscoa é a Mãe de todas as festas cristãs? Porquê um Tríduo tão solene? Porquê não nos cansamos de tanta repetição do mesmo e de celebrações tão longas? E uma primeira resposta será porque, na Páscoa, temos condensada toda a vida de Cristo: Ele nasceu de Maria para levar uma existência de amor e serviço (5ª feira santa), Ele soube morrer tragicamente mas fiel ao seu projecto de amor e libertação de todas as pessoas (6ª feira santa), Ele ressuscitou para partilhar a vida divina e se fazer presente na Igreja e em toda a humanidade (vigília e dia de páscoa).

Mas há uma segunda resposta muito importante para não nos cansarmos nunca de tantas e tão longas celebrações da Páscoa. É uma resposta que tem muito a ver com a experiência de vida que fazemos, todos nós que viemos um dia ao mundo: nós fomos criados por Deus para, no paraíso, partilharmos a vida com Deus, vida que Ele nos quis e quer dar. A verdade, porém, é que a nossa vida não é um paraíso: está semeada de provações, de impasses, pecados, tristeza, sofrimento, sem-sentido. Ora, a Páscoa é a grande resposta a essa experiência de vida tantas vezes negativa. É a celebração da vida, a celebração da confiança na vitória da vida sobre a morte.

A ressurreição é a resposta de Deus às nossas perguntas sobre o porquê do sofrimento, do mal e da morte: é Deus a devolver-nos o paraíso para que tínhamos sido criados e afinal parecia perdido. Por isso nunca nos cansamos nem nos cansaremos de celebrar a Páscoa. Sem ela ficamos enredados na nossa pequenez e na nossa finitude; ficamos sem perceber o porquê viemos ao mundo; ficamos sem saber porquê e para quê Deus nos criou. Sem a Ressurreição, é a morte que vence, morte que é precisamente a negação da vida, essa Vida abundante que Jesus prometera, essa Vida com alegria completa em que Jesus nos iniciou.

A Páscoa celebra-se, justamente, com uma lua cheia; a Páscoa celebra-se, justamente, num equinócio; a Páscoa celebra-se, justamente, na época do brotar das flores; a Páscoa celebra-se, justamente, com ovos de páscoa – tudo sinais de gestação da vida… A Páscoa é a celebração da Vida, da vida que Deus nos dá. Por isso, na Páscoa, só podemos fazer festa e agradecer a Deus, em alegria, o bom que é viver.

 

01/04/2026

Artigo do fr. Bento Domingues, op


PREPARAR A PÁSCOA DO NOSSO MUNDO

  

1. É muito difícil darmo-nos conta da evidência. Para ver o que vemos seria necessário mudar os olhos, mudar o coração. O mundo que temos é um mundo descriado.

Segundo Frederico Lourenço, «O livro que abre a Bíblia é um dos textos mais extraordinários da cultura humana. Para lá das questões complexas atinentes à sua origem e autoria, dificilmente encontramos, na literatura mundial, uma narrativa mais fascinante e mais arrebatadora do que a contada no Livro de Génesis. (…) Génesis 1 oferece um relato optimista da criação, em que Deus cria um mundo belo e bom. O homem e a mulher são criados em simultâneo, à imagem de Deus. Génesis 2, por outro lado, apresenta uma narrativa não só incompatível com a anterior (a mulher é criada depois do homem), mas também menos optimista. O intuito em Génesis 2-3 é propor uma etiologia para aquilo que a observação empírica do mundo confirma: o mundo não é só belo e bom (como em Génesis 1), porque nele também existe o mal»[1]. Tem razão António Lobo Antunes: a vida humana é um mistério[2].

Em que mundo estamos?

Trump, Netanyahu, Putin e outros fazem da força o único argumento válido para governar o mundo, melhor dito, desgovernar o mundo. Essa atitude abre as portas para a barbárie. Os cristãos não podem fechar os olhos, como se temessem ser contaminados ou prejudicar a sua missão apostólica. Proclamar o Reino implica trabalhar pela paz, condenar a violência, exigir respeito pela dignidade humana e cuidar da nossa casa comum. As guerras de Putin, Trump e Netanyahu não são “guerras justas”, que não existem. São guerras inspiradas pela antiga mentalidade colonial, segundo a qual é legítimo saquear a riqueza alheia. Por trás de todas as guerras em curso, existe apenas um desejo obsceno de controlar petróleo, gás, minerais e rotas comerciais[3].

2. O Papa Leão XIV, na sua mensagem do Angelus do Domingo passado, a propósito da narrativa simbólica da cura de um pobre cego de nascença (Jo 9,1-41), lembra que, «enquanto nós estávamos nas trevas, enquanto a humanidade caminhava nas trevas, Deus deu-nos o seu Filho como luz do mundo, para abrir os olhos dos cegos e iluminar as nossas vidas.

«De facto, podemos dizer que todos nascemos cegos. Por nós mesmos não conseguimos enxergar toda a profundidade do mistério da vida. Por isso, Deus fez-se carne em Jesus, para que o barro da nossa humanidade, moldado pelo sopro da sua graça, recebesse uma nova luz, que nos torna capazes de, finalmente e em verdade, ver a Deus, os outros e nós mesmos.

«Irmãos e irmãs, nós também, curados pelo amor de Cristo, somos chamados a viver um cristianismo de olhos bem abertos. A fé não é um acto cego, uma renúncia à razão, uma disposição de certa convicção religiosa que nos leva a desviar o olhar do mundo. Pelo contrário, a fé ajuda-nos a ver o ponto de vista de Jesus, com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver. Pede-nos que abramos os olhos, como ele fez, sobretudo para os sofrimentos dos outros e as feridas do mundo.

«Hoje, em particular, diante das muitas questões do coração humano e das situações dramáticas de injustiça, violência e sofrimento que marcam o nosso tempo, precisamos de uma fé desperta, atenta e profética que nos abra os olhos para as trevas do mundo e leve a luz do Evangelho através de um compromisso com a paz, a justiça e a solidariedade».

Seria bom reler o diálogo entre o filósofo Jürgen Habermas – que acaba de nos deixar – e Joseph Ratzinger, em Munique (2004), sobre a origem dos valores universais. Habermas defendia que eles eram produto de processos deliberativos e não de um mandato sobrenatural. Ratzinger apontou que essa abordagem ocultava o perigo de tornar as maiorias a única fonte de legitimidade, o que não garantia o respeito incondicional da dignidade humana. Ambos concluíram o encontro, reconhecendo que as expressões da fé e da razão devem autocriticar-se para evitar cair na intolerância.

Para aqueles que não têm fé, Ratzinger e Habermas são agora apenas uma lembrança na consciência colectiva. Aqueles de nós que ainda nutrem a esperança de um amanhã, além do tempo e do espaço, acreditam que o filósofo e o teólogo podem continuar o seu diálogo, sem as limitações impostas pela implacável biologia.

3. Consta que o Papa está a finalizar uma Encíclica com o nome Magnifica Humanitas.

Certos meios tradicionalistas esperavam e lutavam, com grandes recursos financeiros, para que, a seguir ao Papa Francisco, fosse escolhido outro de uma linha e uma prática que negassem a herança magnífica de Bergoglio. Aconteceu precisamente o contrário com a eleição do Papa Leão XIV. Desde a primeira hora, com um estilo próprio, afirmou e praticou um caminho nos passos de Francisco.

Algumas correntes tradicionalistas não se deram por vencidas. Renovaram os seus esforços e tentativas para mostrar que o Vaticano e a sua orientação eram obra do Anticristo. Era urgente atacar o Vaticano no coração de Roma. Pensaram e tentaram até manipular – sem sucesso – a Universidade de São Tomás de Aquino, Angelicum, onde tinha sido doutorado Leão XIV.

Segundo José Lourenzo, um jornalista bem informado, o tecnoligarca Peter Thiel, que financia Trump, teria chegado a Roma com suas teorias sobre o Anticristo. Thiel, fundador da poderosa empresa de análise de dados que agora está a ser usada na política de deportação em massa do seu amigo Donald Trump, é também um dos maiores opositores de Leão XIV, assim como o foi de Francisco, porque eles representam tudo o que se opõe aos seus interesses[4].

A celebração da Eucaristia envolve sempre a chamada Liturgia da Palavra Bíblica. Tem razão Santo Agostinho ao dizer que é impróprio afirmar que os tempos litúrgicos são três: passado, presente e futuro. Talvez fosse mais adequado dizer: presente das coisas passadas, presente das presentes e presente das futuras. Para São Tomás de Aquino, o Mistério Pascal não é sobre o passado. É um passado que atinge, de forma presencial, todos os tempos e lugares[5].

Hoje é o V Domingo da Quaresma. O texto do Evangelho é de S. João. É um texto difícil, mas é preciso estar atento, respeitando e aprofundando o estilo do autor. É habitual falar da Palavra de Deus. É uma expressão verdadeiramente bíblica. Não devemos, porém, cair no ridículo de imaginar Deus a abrir a boca e a discursar como fazem os autores do Antigo e Novo Testamentos. O que importa é acolher a mensagem, o sentido dos textos porque é sempre Palavra de Deus em palavras humanas, segundo o estilo e a construção literária de cada um dos autores.

No Novo Testamento, temos várias narrativas de “ressurreições” (ou reanimações). Todas elas existem para nos ajudar a preparar a Páscoa de Cristo, nossa Páscoa.


Fr. Bento Domingues in Público, 22/3/2026 

_____________ [1] Frederico Lourenço, Bíblia. Antigo Testamento, Vol. VI, Quetzal, p. 27 [2] Cf. António Lobo Antunes, Quarto Livro de Crónicas, D. Quixote, 2ª ed. 2011, pp.237-239 [3] Cf. Rafael Narbona, RD, 12.03.2026 [4] Já tinha terminado esta crónica, quando li o texto bem informado de João Pedro Pereira, no Público, 16.03.2026 [5] Suma Teológica III, q. 48, a. 6; p. 56, a. 1
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