Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Jan. 2026) por fr. José Nunes, op


18 DE JANEIRO - 2º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

 

Pelo baptismo somos incorporados em Cristo Sacerdote-Profeta-Rei. As três leituras de hoje inserem-nos nesta realidade: Isaías toca a dimensão real (serviço), a carta aos cristãos de Colossos aborda o sacerdócio (santidade), e o evangelho apresenta a profecia em João Baptista e no próprio Jesus.

Isaías apresenta-nos a figura do Servo, chamado por Deus para desempenhar uma missão: ser luz das nações. É uma missão, portanto, universal, diz respeito a todas as nações! É, certamente, prefiguração da missão de Jesus e da missão actual da Igreja, justamente apelidada pelo concílio Vaticano II como ‘lumen gentium’ (luz das nações): servir a humanidade numa perspectiva libertadora. 

A carta aos Colossenses faz-nos um convite à santidade. Já a carta aos Efésios dizia que fomos predestinados por Deus «para sermos santos e irrepreensíveis na Sua presença» (Ef.1). Ser cristão é buscar a santidade, isto é, ser bom, viver coerentemente o evangelho (o que não é propriamente ser ‘santinho’ ou ‘anjinho’…).

João Baptista foi um verdadeiro profeta! Profeta, já o sabemos, não é o que adivinha o futuro, mas sim o que faz um discernimento no presente para descobrir qual a vontade de Deus no aqui e no agora. João Baptista, no meio do bulício da vida, no meio dos problemas sociais e situação política complicada que se vivia em Israel, no meio de inúmeros grupos socio-religiosos e orientações jurídico-religiosas para vida dos seus contemporâneos, no meio de todo esse complexo de preocupações, necessidades e aspirações, viu em Jesus o verdadeiro Profeta, o Filho de Deus, o Cordeiro de Deus. E assim o anunciou a toda a gente. Ele tinha verdadeiramente a perspicácia própria, um ‘faro’ especial (fruto do Espírito) para discernir a verdade no meio da confusão, aquilo que é luz e importante no meio da rotina e das trevas da vida.

Também hoje, ser profeta é discernir os sinais dos tempos, é descobrir por onde passa a vontade de Deus, que caminhos quer Ele que nós percorramos, individual e comunitariamente! Afinal, onde estão os apelos de Deus à nossa conversão hoje? A nível político, serão as preocupações ecológicas? Será o diálogo inter-religioso como resposta aos fundamentalismos? Será uma nova ordem económica mundial mais justa? E a nível eclesial, será a realidade dos novos movimentos eclesiais e as pequenas comunidades cristãs? Será um novo e maior protagonismo da mulher na vida da Igreja?

12/01/2026

Artigo do fr. Bento Domingues, op


 ESTRANHO BAPTISMO DE JESUS

  

1. Já não estamos em tempos de Cristandade, isto é, num mundo onde a Igreja definia a moral, as leis e os costumes. A história eclesiástica e a história secular estavam entrelaçadas. Existia uma unidade cultural e religiosa. Nesse tempo, onde existia essa unidade cultural e religiosa, geralmente, os pais pediam o Baptismo para os recém-nascidos. Não é essa a situação actual. Basta pensar na tradução portuguesa do livro, O louco de Deus no Fim do Mundo, em três meses já tem 5 edições, escrito por Javier Cercas, romancista espanhol, que se apresenta do seguinte modo: «Sou um ateu. Sou um anticlerical. Sou um laicista militante, um racionalista obstinado, um ímpio inveterado. Mas aqui estou, viajando em direcção à Mongólia com o velho vigário de Cristo na Terra, disposto a interrogá-lo acerca da ressurreição da carne e da vida eterna. Foi para isso que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo».

Nas Igrejas Cristãs, estamos a celebrar algo de insólito, o Baptismo de Jesus, o acontecimento que mudou radicalmente o rumo à sua vida[1]. Tinha mais ou menos 30 anos e era um desconhecido. Quem, na altura, suscitava arrebatadas paixões messiânicas era um seu primo, conhecido por João Baptista.

Um texto do historiador Flávio Josefo, escrito no ano 94 da era cristã, e que vem das Antiguidades Judaicas diz que, por causa desse extraordinário impacto popular, Herodes Antipas, antes que fosse demasiado tarde, meteu-o na cadeia onde foi morto dois ou três anos antes de Jesus ter sido crucificado.

Da infância deste não sabemos quase nada. Consta que na adolescência, aí pelos 12 anos, manifestou nos átrios do Templo de Jerusalém uma irreverência familiar cujo alcance os seus pais não entenderam. Acabou por regressar a Nazaré e aí, como diz S. Lucas, foi crescendo em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens. Mas entre os 12 e os 30 anos – começo da sua intervenção pública – que terá Jesus andado a fazer?

Supõe-se que tenha trabalhado com S. José. Quem julga que num ambiente tão modesto nunca poderia atingir tanta sabedoria e acutilância preenche o silêncio das fontes históricas com estágios de Jesus no Egipto, na Pérsia, na Índia, etc…

Mais insistente é a ideia de ter andado pela comunidade dos monges de Qumran, dada a significação que nela tinha um baptismo de iniciação – rito de acesso a uma refeição de sentido escatológico – e o papel de ambos os ritos na história das origens do cristianismo. Seja como for, Jesus andou sempre na contramão do elitismo moralista dos essênios. Foi certamente discípulo do famoso João Baptista e por ele baptizado.

O que todas as narrativas evangélicas destacam, e que os cristãos celebram hoje, não é esse baptismo. É aquilo que aconteceu logo a seguir e provocou a ruptura irreversível de Jesus com a teologia e o caminho do admirado João Baptista e, durante toda a vida, não suportou as observâncias religiosas e sociais de Israel. Uma dessas observâncias, que Jesus quebrou com mais frequência, foi o Sábado. Foi uma experiência mística de mudança radical. Contam os Evangelhos que, enquanto rezava, o Céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele como uma pomba. E do Céu fez-se ouvir uma voz: “Tu és o meu filho muito amado, em ti pus todo o meu encanto”.

O impacto na vida de Jesus foi impressionante. A partir daí, os seus familiares foram levados a pensar que ele tinha enlouquecido. Passou a fazer família com quem não era da família. A sua intervenção será interpretada com alcance universal: congregar todos os filhos de Deus dispersos, formar um mundo sem excluídos.

A voz que escutou, enquanto rezava, era uma iluminação do Espírito Santo, que alterou tudo o que aprendera acerca de Deus e do Céu com a educação familiar, com os rabinos, com os monges de Qumran e com o próprio João Baptista.

2. Jesus indignou-se ao ver, em nome do Céu, a sua terra carregada de instituições, obrigações e interditos escravizantes cujas vítimas eram os classificados como pecadores, os doentes, os pobres e as mulheres. Aos ricos, os bem sucedidos, os saudáveis e poderosos tinham no corpo e na fortuna a marca da bênção de Deus. Jesus sentiu a urgência em destruir as imagens de Deus que alimentavam e legitimavam a injustiça na terra. Sabia, por experiência, que do sopro de Deus só podem vir declarações de amor e de paz. É essa convicção que permite dizer, no Pai Nosso, assim na terra como no céu, isto é, limpo o céu, cuidemos da terra, de fazer o céu na terra, na mais pura lógica da incarnação e nos limites e contingências da lenta e perturbada história humana.

Jesus, na sinagoga de Nazaré, assumiu a profecia de Isaías, como seu programa, omitindo o dia da ira de Deus, o que indignou as pessoas que o ouviram. Mais tarde, perante os enviados de João Baptista, intrigado com os boatos que lhe chegavam à cadeia, mostrou-lhes alguns sinais de que as coisas estavam realmente a mudar e acrescentou: Há boas notícias para os pobres[2]. Hoje, aumenta o fosso entre ricos e pobres e cresce o número das pessoas com menos de um dólar por dia. Que mudanças é preciso, nas práticas religiosas, para que elas sejam uma força de transformação da sociedade?

3. Por essa razão, as Igrejas Cristãs tentam que a vida humana seja toda ela sacramental. Desde o nascimento até à morte, é enquadrada pelo Baptismo e a Santa Unção. Os outros sacramentos marcam a sua expressão cristã em correlação com as diferentes etapas da vida humana. É a vida humana cristificada.

Nesta perspectiva de vida cristã, não se pode negar à criança o direito a ser envolvida pela graça, pelo amor de Deus. Uma criança é um ser humano com direitos naturais. Não precisa de chegar à idade adulta para ser amada pelos pais e por Deus. Sob o ponto de vista antropológico, não é obrigatório esperar pela idade adulta para ser ela a pedir o baptismo. Os pais também não esperam pela idade adulta dos filhos para tratar da saúde, da higiene e da escolaridade.

Nas várias Igrejas Cristãs, o Baptismo de Jesus é celebrado em datas ligeiramente diferentes, no termo do Tempo de Natal: no Ocidente (Católicos e Protestantes), é no primeiro domingo após a Epifania, isto é, a revelação a 6 de Janeiro; no Oriente (Ortodoxos), é no próprio dia da Epifania, também chamada Teofania, revelação de Deus, com bênção das águas e vigílias especiais.

Não conhecemos os carreiros de Deus. Temos de não esquecer a Sua liberdade e a liberdade do ser humano. Jesus, o Cristo, é um mistério da Terra e do Céu, nosso mistério.

   

Fr. Bento Domingues in Público, 11/1/2026     _____________
[1] Cf. Notas de Frederico Lourenço de Mt 3, 6 e 3, 8, Os Quatros Evangelhos, edição bilingue, Quetzal 2024 [2] Direito a não ser pobre, de Maria d’Oliveira Martins, UCP 2025
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