NO MEIO DAS TEMPESTADES
1. Nos dias 7 e 8 deste mês, realizou-se o primeiro Consistório, convocado pelo Papa Leão XIV. Que fazer para que o Consistório não seja só a voz dos cardeais? É fundamental que, nesta instituição, estejam também as vozes de leigos, mulheres e homens. Na Igreja, segundo o Vaticano II, a palavra não pertence, apenas, à hierarquia. Não será um Consistório, que exclui representantes de todas as componentes da Igreja, uma traição à própria Igreja sinodal?
Espera-se que, no futuro, o governo da Igreja nasça de toda a Igreja, Povo de Deus. A noção de caminhar juntos – Igreja sinodal – é incompatível com o sistema que exclui os leigos, mulheres e homens. Os próprios Bispos sem os leigos não são bispos. Neste ponto, não deve ser esquecida a palavra de Santo Agostinho: convosco sou cristão, para vós sou bispo.
Um erro, por excesso ou por defeito nesta matéria, destrói aquilo que se julgava já adquirido. Com o Papa Francisco, foram desencadeados processos para que, em nome da memória, não se trave o presente e o futuro. O tempo da Igreja pode ser entendido como já, mas ainda não.
É uma ilusão pensar que se abrem caminhos definitivos. Temos de ter em conta o essencial, o Querigma, o primeiro anúncio do Evangelho, para não nos perdermos em regras, numa floresta de assuntos secundários, como acontece muitas vezes. A letra mata, o Espírito vivifica[1]. Como diz S. Tomás de Aquino, o que há de essencial no Novo Testamento é a graça do Espírito Santo, tudo o resto é secundário. É esse Espírito que abre o diálogo entre as Igrejas, entre as religiões e entre os problemas da sociedade actual[2]. Nunca perder de vista a correlação que deve existir entre a vida humana e a vida cristã. Como diz Hélder Câmara, Põe o ouvido no chão/ e interpreta os rumores à volta.
A perspectiva que deve prevalecer é o caminho que já foi feito e o que falta percorrer. Leão XIV mostra-se muito atento à agitação do mundo actual, inclusive da própria Igreja. No dizer de Timothy Radcliffe, «Não devemos ter medo. Nós também vivemos em tempos de tempestades terríveis, marcados pela escalada da violência, o crime armado, a guerra. (…) Sem ignorar os problemas internos da Igreja, a própria Igreja está a ser abalada pelas suas próprias tempestades»[3].
As catequeses deste Papa, das quartas-feiras de 2026, não são apenas para não perder a memória e não deixar que a Igreja contraia a doença de Alzheimer, mas também para não perder o sonho dos novos Céus e da nova Terra. É no presente que vivemos, abrindo o futuro.
2. O Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé tem a responsabilidade de ajudar a abrir caminhos, de alargar as perspectivas teológicas, de estimular as iniciativas da cultura da Fé. Deve, por isso, resistir à tentação de querer ser o único que, na Igreja, pensa que tem o exclusivo da teologia ortodoxa. Já conhecemos períodos que foram um travão à criatividade.
No início do Consistório, o Cardeal Víctor Manuel Fernández, perante o Papa Leão XIV e o Colégio Cardinalício, apresentou a exortação programática de Francisco – Evangelii Gaudium – como um desafio «que não pode ser enterrado» e como a chave hermenêutica para o actual impulso sinodal e missionário: «Não se trata de uma antiga opção pastoral que possa ser substituída por outra», mas sim de uma maneira de conceber toda a vida da Igreja a partir da perspectiva do anúncio do Evangelho.
Este Cardeal, bem diferente de outros de má memória, recorda as três motivações espirituais propostas na Evangelii Gaudium e que «continuam relevantes hoje»:
a). Renovar a experiência de não conseguir viver sem o Senhor Jesus, sem a sua amizade e a sua presença viva. Ele é a minha rocha, o meu tesouro, a minha vida, a minha esperança. b). Renovar a paixão pelo povo, o prazer de estar com o povo, a decisão de sofrer e caminhar com ele. c) A convicção de fé de que a nossa dedicação à proclamação do Evangelho sempre dá frutos, além do que vemos, além do que podemos verificar… sem pretender saber como, onde ou quando.
«Diante dos grandes desafios do mundo e da Igreja, podemos sentir que temos pouco a oferecer. O que podemos dizer ou fazer que realmente faça a diferença? No entanto, com a graça de Deus, o nosso pouco será mais do que suficiente. Não endureçamos os nossos corações, mas abramo-los aos dons imensuráveis de Deus, que nos concede graça ilimitada se abrirmos as nossas mãos e os nossos ouvidos para Ele e para os outros»[4].
A meditação de Radcliffe serviu como um apelo à unidade, ao discernimento e à acção missionária, convidando os cardeais a não se esconderem, mas a navegarem nas tempestades actuais, centrados no Evangelho e na pessoa de Cristo, mesmo perante as suas próprias divisões e desafios.
3. Estamos em plena Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Recordemos: o Papa Leão XIII (1810-1903) tinha pensado promover uma novena pela unidade dos cristãos, aproveitando a semana que vai do dia da Ascensão à festa de Pentecostes. Mais tarde, a ideia foi muito divulgada por Paul Wattson (1863-1940), um anglicano que se tornou católico romano. A proposta de data feita por Wattson era de 18 de Janeiro (festa da cátedra de S. Pedro em Roma) a 25 de Janeiro (festa de S. Paulo). Estariam assim representados, nos dois apóstolos, estilos diferentes de vivência cristã (1908). Mas, de acordo com a mentalidade católica da época, pensava-se em unidade como retorno de todos os cristãos à Igreja com sede em Roma. Como era de esperar, tal proposta não foi bem aceite por ortodoxos e protestantes. Em 1926, o movimento Fé e Constituição, que mais tarde esteve na origem da formação do Conselho Mundial de Igrejas, lançou um apelo para a realização de uma Semana de Oração pela Unidade, a ser feita nos dias que antecedem a festa de Pentecostes.
Um grande impulso veio do padre católico francês Paul Couturier (1881-1953), a partir de 1935. Mas desta vez, a proposta mostrava uma abertura da parte católica: não se tratava de um retorno ao catolicismo, mas da reunião fraterna de Igrejas, cada uma com a sua identidade. Dizia: «Que chegue a unidade do Reino de Deus, tal como Cristo a quer e pelos meios que ele quiser!» O Movimento Ecuménico, com o Vaticano II (1962-1965), tornou-se um caminho de reforma da Igreja, em diálogo com todos os cristãos e aberta a toda a Humanidade. O Papa Francisco compreendeu a dimensão universal deste movimento: Fratelli Tutti.
«Não haverá paz entre as nações, se não existir paz entre as religiões; não haverá paz entre as religiões, se não existir diálogo entre as religiões; não haverá diálogo entre as religiões, se não existirem padrões éticos globais; o nosso planeta não irá sobreviver se não houver um ethos global, uma ética para o mundo inteiro»[5].
Fora do diálogo não há salvação.
Fr. Bento Domingues in Público, 25/1/2026
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[1] 2 Coríntios 3, 6
[2] Frei Bento Domingues, O.P., Fora do Diálogo não há Salvação, Temas e Debates, 2024
[3] Timothy Radcliff, no início do Consistório: Pedro não deve enfrentar a tempestade sozinho.
[4] Timothy Radcliff, ao concluir a sua intervenção, no início do Consistório
[5] Hans Küng (1928-2021)