Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Maio 2026) por fr. José Nunes, op


31 DE MAIO - SANTÍSSIMA TRINDADE - ANO A

 

S. Tomás de Aquino escreveu milhares de páginas sobre Deus e, contudo, confessou: de Deus sabemos mais o que Ele não é do que o que é. De facto, da natureza de Deus sabemos bem pouco… Mas acreditamos muito! E essa fé confessamo-la e explicitamo-la a partir das nossas experiências humanas, o que nos conduz à afirmação de que Deus é uma Santíssima Trindade: temos a realidade dos pais que nos dão a vida e amam e, então, dizemos que Deus é nosso Pai e nossa Mãe – porque nos dão a vida e amam; temos a necessidade de conviver com amigos, companheiros de jornada e de lutas, então dizemos que Jesus é o nosso amigo e companheiro por excelência, é o nosso irmão mais-velho, Filho de Deus (como nós o somos, à nossa maneira); temos a necessidade de sentido para a vida, de alegria, coragem e força interior, então dizemos que Deus é um Espírito (Santo), que vive em nós para nos oferecer tudo isso.

Por outro lado, ao confessarmos um só Deus mas em três pessoas, estamos a afirmar que Deus é uma comunidade de pessoas, é uma família. O que nos desafia a uma vida também divina entre nós: vivermos em família de amor.

A primeira leitura, do livro do Êxodo, anuncia um Deus clemente e compassivo, rico em misericórdia. É uma compreensão de Deus muito próxima da que nos é apresentada por Jesus e em todo o Novo Testamento: o Deus cristão não é justiceiro, vingativo, polícia ou vigilante, castigador (como aparece noutras religiões ou na distorção da nossa própria religião cristã). Ele é bom e só quer o nosso bem e felicidade.

Na segunda leitura temos uma fórmula trinitária (e essas fórmulas são bem raras na Bíblia…). O que nos lembra que Deus é família e pede para vivermos em família, essencialmente com três características: alegria, amor e paz. Haverá algo de mais maravilhoso? Poderemos alguma vez ser mais felizes vivendo de outro modo?

O evangelho confirma-nos nessa fé num Deus bom, compreensivo e amigo dos seres humanos: Deus enviou o Seu Filho ao mundo para viver connosco (é Emanuel – Deus connosco), partilhar as vicissitudes históricas de toda e qualquer vida, acompanhar-nos em todos os momentos da nossa peregrinação na terra. Deus não enviou o Seu Filho para condenar mas para salvar. Deus não condena. Deus ama e perdoa. Nós é que quando nos afastamos de Deus (do amor, da paz) nos condenamos ao inferno em que a vida se torna.

 

 

25/05/2026

Artigo do fr. Bento Domingues, op


AS PREOCUPAÇÕES DE LEÃO XIV

  

1. De onde vimos? A referência cristã não pode esquecer o chamado Antigo Testamento, como queria Marcião (85-160), embora ele sirva para marcar a diferença entre o Antigo e o Novo. No entanto, a marca dos escritos de Paulo, dos 4 Evangelhos e dos Actos dos Apóstolos é incontornável. Não na pura letra que mata, mas no Espírito Santo que está presente em todo o tempo e lugar.

Em poucas linhas, os Actos dos Apóstolos narram um começo do começo. No 1º capítulo, resolve mostrar que os discípulos continuavam com os sonhos de participarem no governo do Nazareno. Já tinham mostrado a decepção perante a prisão e a morte do Mestre. A pergunta – Senhor, é agora que vais restaurar a realeza em Israel? – provoca a decepção de Jesus, na sua relação com os discípulos. Não tinham aprendido nada, mas não desiste. Precisam de acolher o Espírito que O anima para se tornar o Espírito de toda a comunidade cristã. Entretanto, pede-lhes que aguardem o novo regime que não é a restauração desejada. O Reino de Deus só pode vir de Deus. É o sentido da Ascensão que abre um novo mundo, possibilitando a participação de todos contra a ideia de um cristianismo de pasmados, a olhar para o céu, quando estão a ser interpelados para olharem para o mundo a transformar. E acontece o inesperado, embora tenha sido anunciado: o Dom do Espírito.

O autor dos Actos dos Apóstolos, serviu-se de uma grande festa judaica celebrada 50 dias depois da Páscoa (Pentecostes, festa da Lei moisaica), para acolher uma nova Lei que é a Graça do Espírito de Deus.

2. Onde estamos como cristãos, como católicos? Estamos numa Igreja pós-João XXIII, pós-Vaticano II, pós um inverno, como lhe chamou Karl Rahner, e pós-Francisco – uma grande primavera, uma grande esperança – inspirado numa humilde figura medieval, Francisco de Assis com 800 anos, mas de pura actualidade. Figuras da história humana e eclesial do passado, do presente e do futuro.

O Papa Leão XIV, por causa do presente, foi buscar ao século XIX Leão XIII que soube incentivar o entendimento entre a Igreja e o complexo mundo moderno, sem esquecer uma outra figura medieval inspiradora, incontornável, mas vencendo a tentação de o copiar, como muitos queriam. Esse filósofo e teólogo é Tomás de Aquino.

Em 1891, Leão XIII publicou, no contexto da Segunda Revolução Industrial, a encíclica Rerum Novarum que ficou como o primeiro grande documento sobre as questões de desigualdade social, concentrando-se nos direitos e deveres do capital e do trabalho. Pode considerar-se o início da chamada Doutrina Social da Igreja.

Já não estamos no século XIX. Robert Francis Prevost, natural dos EUA e naturalizado cidadão do Peru, para onde foi como missionário, foi eleito Prior Geral da Ordem de Santo Agostinho, em dois mandatos. Percorrendo o mundo, ficou a conhecer os problemas locais e globais deste mundo em transformação. A 8 de Maio 2025, precisamente há um ano, foi eleito Papa, assumindo o nome de Leão XIV.

Este Papa sustenta que estamos numa nova revolução, particularmente com os avanços da Inteligência Artificial, com novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho. São realidades novas do nosso tempo.

Efectivamente, vivemos num mundo marcado por guerras e conflitos, mentira, ganância desmedida e uma nova corrida aos armamentos. O mundo da Inteligência Artificial, mas ao mesmo tempo um mundo que aparenta menos sabedoria e menos bom senso em vários domínios. Um mundo com inúmeras redes sociais, mas com pessoas cada vez mais isoladas e dependentes de um ecrã de smartphone[1].

Leão XIV revelou-se uma voz que não vacila em denunciar dirigentes políticos enriquecidos à custa da pobreza de muitos povos privados da liberdade, dos direitos humanos mais fundamentais. No seu primeiro ano, este Papa deixou de ser uma surpresa para se converter em esperança e referência moral não só para os católicos.

Muita gente temia, e outra desejava, que os caminhos abertos por Francisco fossem fechados pelo novo Papa. Aconteceu precisamente o contrário porque é possível dar continuidade e, simultaneamente, trilhar novos caminhos; estar preso a uma raiz e não deixar de ser livre; reconhecer o valor da tradição e, mesmo assim, ser profeta.

Suceder a um grande Papa, como Francisco, parecia um empreendimento quase impossível. Bergoglio deixou uma Igreja em movimento, em saída, uma primavera florescente, com as suas tensões, as suas reformas pendentes e o seu impulso evangélico latente em muitas periferias.

Chegar depois dele, era caminhar sobre um terreno carregado de memória, de processos, de gestos, de palavras, sem comparação e exigentes. E fazê-lo em plena era de Trump, com o seu ruído de fundo, com as suas guerras culturais e com o seu impulso de confrontação, ainda parecia mais difícil. No entanto, Leão XIV assumiu o desafio com uma das poucas armas que hoje continua a ser fecunda: a serenidade[2].

3. Uma herança e um projecto. A herança é antiga. Podia referir o modo de resolver uma questão vital nos começos do cristianismo: ser apenas uma variante do judaísmo fechado aos outros povos ou realizar aquilo que Paulo, na Carta aos Gálatas 3, 28 nos apresenta: não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem e mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus. Isto era um só a dizê-lo, mas nos Actos dos Apóstolos, capítulo 15, para conseguir um cristianismo aberto ao mundo todo, foi preciso reunir um sínodo para caminharem juntos (syn = junto; hodos = caminho). Não o fazer era atraiçoar o dom do Espírito Santo que fez, no Pentecostes, uma unidade na diversidade de povos e culturas.

A sinodalidade é, pois, uma herança recuperada por Francisco. Organizaram-se grupos para tratar de assuntos prementes e diversos na Igreja de hoje. O cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo, assinalou a importância deste método na governação da Igreja.

Por exemplo, diz que a escolha de um bispo é um momento de autêntico discernimento da comunidade cristã: não existe pastor sem rebanho, nem rebanho sem pastor. O pastor oferece-nos instrumentos concretos para enfrentar as questões mais difíceis sem fugir da complexidade: ouvir as pessoas envolvidas, ler a realidade, reunir os conhecimentos. É o método sinodal aplicado às situações mais exigentes.

Agora, teremos de nos confrontar com a primeira encíclica de Leão XIV, que, na altura em que escrevo, ainda não foi publicada. Apenas sei que terá o título de Magnifica Humanitate.

Sabemos, no entanto, a sua preocupação em preservar vozes e rostos humanos. Pois, como diz na sua mensagem do 60º Dia Mundial das Comunicações, não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos predefinidos antecipadamente. O desafio, mais que tecnológico, é antropológico. Afinal, quem somos nós?

Fr. Bento Domingues in Público, 17/5/2026 

_____________

[1] Cf. 7Margens, 10.05.2026

[2] Cf. José Manuel Vidal, Religión Digital, 08.05.2026

 

 

17/05/2026

JORNADAS DA FAMÍLIA DOMINICANA - 2024

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