SERVIR OU DOMINAR?
1. S. Pedro não escreveu muito. Deixou-nos, no entanto, um conselho que me parece muito fecundo: estai sempre pontos a dar razões da vossa esperança; fazei-o, porém, com mansidão e respeito[1]. Temos de encontrar, nas diferentes culturas e nas suas diferentes fases de evolução, a linguagem menos inadequada para mostrar as razões da nossa esperança. Pedro mostrou que não tinha nenhuma simpatia pela teologia arrogante.
S. Tomás de Aquino acolheu a teologia que procura a inteligibilidade da fé (intellectus fidei). No entanto, na Summa Theologiae, advertiu-nos que não podemos saber como Deus é, mas como Deus não é[2]. É uma teologia para a qual «Deus é excesso, super excesso. Há nomes de criaturas que lhe ficam melhor a Ele do que às criaturas. Mas, quanto ao modo de significar, não há nome que lhe seja apropriado»[3]. Escolheu o caminho da teologia mística de Dionísio Areopagita, também chamada teologia negativa.
O mesmo teólogo – que morreu aos 47 anos – escreveu que, acerca de Deus, tanto mais sabemos quanto mais nos apercebemos que excede tudo o que dele compreendemos. Numa experiência mística concluiu que tudo quanto tinha escrito lhe parecia palha seca e deixou a Summa Theologiae inacabada. A linguagem menos imperfeita para exprimir o acolhimento da fé é sempre simbólica, metafórica, a da beleza, a do amor e a da responsabilidade ética.
S. Paulo deu-lhe uma expressão quase narrativa: A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós[4]. Representa um belo sumário da teologia da unidade plural da Igreja, na comunhão e na diversidade dos seus carismas. Por desgraça, os rituais não conservam apenas as referências centrais de uma religião. Decaem facilmente em rotinas que adormecem as consciências em vez de as despertar para o que falta viver e fazer.
Pai e Filho partilham um mesmo Espírito que nos é dado: «todos os que se deixam guiar pelo Espírito são filhos de Deus. Não recebestes um Espírito que vos escravize e volte a encher-vos de medo, mas recebestes um Espírito que faz de vós filhos adoptivos. É por Ele que clamamos: Abba, Papá! Esse mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus[5].
É hoje que nos debatemos com o totalitarismo, tanto no campo político como no campo eclesiástico. A unidade sem a multiplicidade torna-se uma fonte de totalitarismo. Em textos decisivos da Bíblia, podemos encontrar a convivência do uno e do múltiplo.
Na simbólica da Criação, há um único Deus e a multiplicidade das criaturas. Na narrativa da Torre de Babel, são os seres humanos que desejam uma só língua, uma só cultura. É Deus que opta pela pluralidade de línguas, culturas e povos. Deus é antitotalitário. No Novo Testamento, a simbólica do Pentecostes diz que muitos povos entendiam na sua própria língua, na sua própria cultura. Perante a tentação da cultura hebraica de ter o privilégio de ser o único povo de Deus, Paulo, que era judeu, converteu-se em apóstolo de um cristianismo aberto a todos os povos: não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus[6]. O autor da Carta aos Efésios diz que o muro que separava os povos é derrubado por Cristo[7].
2. Hoje, a Igreja Católica celebra o mistério da SS. Trindade. No meu convento – Convento de S. Domingos – canta-se um êxtase de Santa Catarina de Sena: Ó Deus, Trindade Santa,/ ó luz mais radiosa que toda a luz,/ fogo mais ardente que todo o fogo,/ Tu és um oceano, a paz,/ Tu és um mar sem fundo,/ mais eu mergulho, mais eu me afundo,/ mais eu Te encontro, mais eu Te procuro ainda./ Sede que Tu saciaste no deserto um dia,/ para sempre ficar com sede de Ti[8]. Esta oração é um poema. Não precisa de comentários. Traz consigo a sua própria inteligibilidade simbólica.
Por outro lado, o dominicano, Paul Blanquard (1934-2024) tira consequências democráticas do Deus trinitário: em Deus, de modo absolutamente transcendente, as pessoas são todas iguais, todas diferentes, todas activas sem subordinação, em relação recíproca de comunhão. É esta, aliás, a utopia implícita que alimenta a construção de uma verdadeira democracia, a nível local e mundial.
Na grande entrevista que o Prof. Isidro Lamelas concedeu a Jorge Wemans[9], afirma que «a teologia hoje vive alheada da vida e nós precisamos que a teologia se torne um assunto de interesse, não só dos crentes, mas que ela seja relevante, tenha uma presença pública. Para isso precisamos de atualizar a sua linguagem… Isto é uma dificuldade imensa, sobretudo no nosso país.
(…) Creio que hoje estamos a viver precisamente a experiência de uma casa sem o dono, precisamente porque Ele não é tido nem achado. E não sendo tido nem achado, começamos também a pôr-nos em causa a nós, humanidade, que somos os habitantes da casa de Deus, a própria experiência humana e o destino da humanidade. Talvez precisássemos de uma coragem maior, no sentido de a Igreja se unir, desse sonho da união, que foi o sonho do próprio mestre, Jesus, o seu grande desejo: Que todos sejam um.
O que presidiu ao Concílio de Niceia (ano 325) foi esse sonho da unidade da humanidade, como uma grande família, não unida à volta de um pensamento único, ou de um monolitismo cultural, religioso ou intelectual, mas à volta, precisamente, de um respeito pela diversidade, pela diferença, pela afirmação do múltiplo. O múltiplo pode conviver com a unidade. E, inversamente, a unidade pressupõe a multiplicidade. Portanto, o ideal não é que todos sejamos iguais, é que todos sejamos diferentes, respeitando o que cada um é».
3. Temos de passar de uma Igreja que era só da hierarquia a uma Igreja sinodal, de todos, todos, todos. Todos a caminhar juntos, na diferença dos caminhos a percorrer, segundo os cristãos da grande pluralidade de povos e culturas.
No passado dia 25, foi publicada a primeira encíclica do Papa Leão XIV com o título Magnifica Humanitas (Humanidade Magnífica).
«No seu centro está o mistério da Encarnação: o Verbo fez-se carne e veio habitar entre nós. A carne do Filho, pobre e vulnerável, remete para a carne de tantos irmãos e irmãs despojados da sua dignidade e reduzidos ao silêncio; e através desta proximidade, o dom da paz entra no mundo de forma paradoxal: enquanto poder de nos tornarmos filhos de Deus, reavivado quando nos deixamos tocar pelo choro das crianças, pela fragilidade dos idosos, pelo silêncio das vítimas, pelo cansaço daqueles que lutam contra o mal que não desejariam cometer. Nesta carne ferida e amada, o Pai mostra-nos a verdadeira humanidade de uma vida que se realiza na abertura e na comunhão, a ponto de nos fazer desejar que a sua vontade se faça assim na terra como no Céu»[10].
É um grande roteiro de confronto com os desafios actuais de grandeza e de ameaças. Servir a Paz exige todos os trabalhos para acabar com as guerras.
Fr. Bento Domingues in Público, 31/5/2026
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[1] 1Pd 3, 15-16
[2] I parte, q. 3, Prólogo
[3] I q.12, 12; q.13, a.4; a.6; a.11
[4] 2Cor 13, 13.
[5] Rm 8, 14-17
[6] Gal 3, 28
[7] Ef 3, 14-17
[8] Oração de Santa Catarina de Sena
[9] 7Margens, 19.04. 2025
[10] MH. Nº 231