Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Set. 2020) por fr. José Nunes, op

20 de Setembro – 25º Domingo do Tempo Comum – Ano A 

 

Escutamos hoje a clássica passagem de Isaías: os pensamentos de Deus não são como os nossos. Isto pode ser visto numa perspectiva negativa: somos diferentes de Deus, somos muito pecadores, somos mundanos e não divinos, somos capazes de muita maldade (guerras, injustiças, ódios, etc); mas também pode ser entendido de forma mais positiva: Deus é bom, não é como nós, não é mesquinho, não é vingativo, não castiga mas perdoa! Então, se bem que haja aqui um desafio a converter os nossos pensamentos (e acções), também há aqui motivo para regozijo: ainda bem que os pensamentos de Deus não são como os nossos… são infinitamente melhores e mais puros que os nossos!

A afirmação de Paulo «para mim viver é Cristo e morrer é lucro» é a frase que está gravada no seu túmulo, em Roma. E são palavras que resumem toda a sua vida: ele desejava a vida eterna com Deus mas sabia que, para já, estava na terra para evangelizar e dar testemunho de Jesus.

Quanto ao evangelho de hoje, parece que faz o elogio de uma injustiça: o dono da vinha paga o mesmo a quem trabalhou o dia todo e a quem só trabalhou uma hora ao fim do dia… Claro que esse proprietário representa Deus, e então parece que Deus não é justo! Ora aqui está a concretização do que dizia a primeira leitura de Isaías: Deus é bem diferente de nós…! Vejamos alguns possíveis ensinamentos da parábola:

- Se bem observarmos, Deus dá uma boa recompensa e bom pagamento a todos! Porque é que achamos que Deus não pode ser bom para com todos? 

- Certamente que o texto do Evangelho foi escrito a pensar que os últimos a entrar na vinha são os últimos a entrar no Povo de Deus, ou seja, os pagãos, enquanto que os judeus já há muito faziam parte desse povo. Mas os judeus não têm que pensar ou sentir que têm mais direitos do que os outros. Do mesmo modo, hoje, os cristãos não têm que se achar com mais direitos que os pagãos, ateus ou membros de outras religiões: basta olhar para o nosso próprio compromisso e procurar ser santos, sem necessidade de nos compararmos com os outros.

- A vinha pode representar a Igreja. E na Igreja todos são chamados a «trabalhar», uns mais tempo e outros menos tempo… mas todos têm a mesma dignidade e todos são amados pela cabeça da Igreja que é Cristo.

- Quem trabalha mais tempo na vinha, afinal, acaba por ganhar mais do que quem trabalha menos: porque começou mais cedo, também desfrutou mais tempo da vida de amizade com Deus – esse é o maior prémio!

 

17/09/2020

Artigo do fr. Bento Domingues, op


A Conversão do Papa Francisco

 

1. Para muitos dos baptizados em criança, só fica o seu registo paroquial. Em certos casos, a própria fé de quem apresentava a criança à comunidade cristã não era uma realidade vivida, pensada e celebrada. Era, por vezes, um gesto de memória familiar dissolvido numa festa de interesses, sem confronto e compromisso actuantes com a mensagem e a prática de Jesus Cristo. É talvez uma das fontes da expressão ambígua dos chamados “católicos não praticantes”. Não praticantes de quê? De certas práticas rituais ou das exigências concretas do Evangelho que se inscrevem na vida pessoal, familiar, social, cultural e política?   Note-se que os que foram apresentados, em criança, ao Baptismo por famílias de fé vivida e pensada, celebraram a gratuidade do amor de Deus que não espera que ela seja adulta para a inscrever no seu coração, seja baptizada ou não.   A celebração não é, de modo nenhum, um gesto humanamente absurdo. Os pais também não esperam que os seus filhos cresçam para gostar deles, para os rodear de manifestações de afecto e de todos os cuidados. O rito cristão do baptismo das crianças, em comunidades crentes, não é um abuso nem um acto de magia. Não é um destino imposto, mas um itinerário cristão a ser assumindo, de modo pessoal e livre, ao longo de toda a vida, mediante conversões que marcam cada uma das suas etapas. Mas que também pode ser esquecido ou até renegado.   2. Suponho que Jorge Mario Bergoglio (17.12.1936) tenha sido baptizado em criança, em Buenos Aires. Não consta que o seu baptismo tenha sido acompanhado de qualquer revelação divina de que, depois de muitas peripécias, viria a ser ordenado padre, sagrado bispo e eleito Papa Francisco!   No passado dia 3 de Setembro, confessou a um grupo de peregrinos franceses a sua incredulidade ecológica, a sua conversão e o processo da elaboração da encíclica Laudato Si (LS), há cinco anos! O melhor é dar-lhe a palavra:   «Gostaria de começar com um fragmento de história. Em 2007, teve lugar a Conferência do Episcopado Latino-Americano no Brasil, em Aparecida. Fiz parte do grupo de redactores do documento final, e chegavam propostas sobre a Amazónia. Eu dizia: Estes brasileiros já aborrecem com esta Amazónia! Que tem a Amazónia a ver com a evangelização? Eu era assim em 2007. Depois, em 2015, saiu a Laudato si’. Percorri um caminho de conversão, de compreensão do problema ecológico. Antes eu não entendia nada!»   Não relatou apenas o facto, mas também o processo, a conjuntura e as mediações que estão na base desse texto, a muitos títulos, admirável:   «Quando fui a Estrasburgo, à União Europeia, o Presidente Hollande pediu à Ministra do Meio Ambiente, Ségolène Royale, que me recebesse. Falamos no aeroporto... No início um pouco, porque já havia o programa, mas depois, no final, antes de partir, tivemos de esperar um pouco e falamos mais. E a senhora Ségolène Royale disse-me o seguinte: É verdade que o Senhor está a escrever algo sobre a ecologia? — c’était vrai! — Por favor, publique-a antes do encontro de Paris!».   O Papa não podia falhar esta ocasião extraordinária, tão oportunamente oferecida: «Chamei o grupo de pessoas que a redigia — para que saibais que não a escrevi sozinho, mas com um grupo de cientistas, um grupo de teólogos, e todos juntos fizemos esta reflexão — chamei o grupo e disse: Tem de sair antes do encontro de Paris - Mas porquê? — Para fazer pressão. De Aparecida à Laudato si’, para mim, foi um caminho interior».   Por ser Papa, não sabe tudo e nem invocou a celebrada infabilidade pontifícia para vir em seu auxílio: «Quando comecei a pensar nesta Encíclica, chamei os cientistas — um bom grupo — e disse-lhes: Dizei-me coisas claras e comprovadas, não hipóteses, mas realidades. E eles trouxeram o que hoje vós ledes aqui. Em seguida, chamei um grupo de filósofos e teólogos [e disse-lhes]: Gostaria de fazer uma reflexão sobre isto. Trabalhai vós e dialogai comigo. E eles realizaram o primeiro trabalho, depois eu intervim. E, no final, fiz a redacção conclusiva. Essa é a origem».   Não narrou a sua conversão para recordar um momento importante. Como todos os verdadeiramente convertidos não podem guardar para si o que os encheu de alegria: «Quero frisar isto: da absoluta incompreensão, em Aparecida (2007) até à Encíclica. Gosto de dar testemunho disto. Temos de trabalhar para que todos percorram este caminho de conversão ecológica»(1).   Dizer que o Papa Francisco é um católico praticante significa que a sua fé é aberta a todos os mundos, é inclusiva. Por isso, não pode deixar de insistir neste sentido da inclusão universalista, que já era a marca da primeira geração cristã, proclamada nas celebrações do Baptismo. A exegese histórico-crítica verificou que não foi S. Paulo que a inventou. Ele recebeu-a de uma prática que lhe era anterior(2). Esta característica é incompatível com as práticas sociais, económicas e políticas que fomentem desigualdades, seja qual for o motivo.   3. A encíclica LS teve um eco significativo dentro e fora da Igreja Católica e entre crentes e não crentes. O Papa Francisco, no entanto, resolveu que, «anualmente, daqui em diante, o primeiro dia de Setembro assinala, para a família cristã, o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação; e com ele se abre o Tempo da Criação que conclui no dia 4 de Outubro, memória de São Francisco de Assis. Durante este período, os cristãos renovam, em todo o mundo, a fé em Deus criador e unem-se de maneira especial, na oração e na acção, pela preservação da Casa Comum».   Posta a questão ecológica nesses termos, podíamos ficar com a ideia de que o Papa Francisco se interessa, apenas, com a Igreja Católica. Mas não: «Alegro-me com o tema escolhido pela família ecuménica para a celebração do Tempo da Criação 2020, ou seja, um Jubileu pela Terra, tendo em vista que se celebra precisamente, este ano, o quinquagésimo aniversário do Dia da Terra»(3).   Este ano ainda não chegou ao fim. Está prevista, para 3 de Outubro, a assinatura de uma 3ª encíclica Fratelli tutti (Todos irmãos), da qual ainda não sabemos o conteúdo, mas tem um precedente inter-religioso notável(4). Dada a pandemia, o encontro Economia de Francisco, realizar-se-á, de 19 a 21 de Novembro, através de plataformas on line. É urgente um novo paradigma económico se quisermos converter a expressão Todos Irmãos, mil vezes repetida, em realizações do nosso tempo, dilacerado por escandalosas desigualdades.   Fr. Bento Domingues in Público, 20/9/2020 _____________ 1 Cf. Audiência do Papa Francisco a um grupo, Leigos Ecologistas, vindo de França, 03. 09. 2020, in www.vatican.va. Transcrevi apenas a primeira parte da “conversão”. Importa ler o texto na íntegra. 2 Michel Gourgues, Repères pour une exploration histórico-critique du Nouveau Testament, in Cahiers Évangile, 192 (Juin 2020), 6-7 3 Cf. Mensagem do Papa para a celebração do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação (01.09.2020), in www.vatican.va 4 Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum, assinado por Papa Francisco e Grão Imame Ahmad Al-Tayyeb, a 14 de Fevereiro de 2019.
19/09/2020

Exposição de Arquitectura

10/06/2018

Clausura do Jubileu OP

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29/01/2017