Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Nov. 2018) por fr. José Nunes, op

 

9 Dezembro – 2º Dom. Advento – C

Que texto maravilhoso do profeta Baruc: anuncia um mundo completamente novo, em que não haverá mais luto nem aflição e onde a criação inteira exultará harmoniosamente como no paraíso, com paz, justiça, misericórdia, alegria e união entre os povos. E esse mundo novo será dom de Deus, sem dúvida, mas nunca deixa de aparecer o convite a que nós colaboremos com Deus na sua construção.

Na carta aos Filipenses, Paulo alegra-se com as maravilhas que Deus vai operando nos cristãos daquela cidade de Filipos, na Macedónia, e exorta ao crescimento na ciência, discernimento e santidade e pureza irrepreensíveis «até ao dia de Cristo Jesus». Que quer isto dizer? Simples: os primeiros cristãos viviam com muito entusiasmo a promessa da ‘parusia’, isto é, da segunda e definitiva vinda de Cristo à terra. Então, tinham de estar em advento permanente, a vida era toda ela um advento, uma espera em compromisso do encontro com Cristo.

O evangelho de Lucas apresenta-nos a figura de João Baptista, o precursor, o que vem antes de Jesus e alerta as pessoas para prepararem a sua vinda, para estarem prontas a acolhê-l’O. Essa tarefa é descrita com a imagem do aplanar as veredas, o endireitar dos caminhos… Nunca é demais repetir que quem vem até nós é Deus, Ele é que toma a iniciativa de vir ao nosso encontro; mas a nós é pedido o não impedir a sua chegada e entrada nos nossos corações, nomeadamente com a recusa categórica de toda a injustiça, soberba, altivez, maldade.

 

8 Dezembro – Imaculada Conceição – C

 

Todos nós nascemos num mundo cheio de pecado. E cada dia que passa, mais pecados estragam a vida de todos e cada um. É uma triste realidade… mas não é toda a verdade! Deus criou um paraíso e fez-nos a sua oferta como um dom. E se constatamos que desde sempre houve pecado do ser humano, isto é, sempre houve destruição da possibilidade do paraíso, também não é menos verdade que Deus nunca abandona as criaturas à sua sorte, mas acompanha-nos a todos e cada um desde o dia em fomos concebidos. Não nascemos apenas marcados pelo pecado do mundo: nascemos envolvidos no maravilhoso amor de Deus, o autor de toda a vida.

Nesse sentido, na segunda leitura de hoje, São Paulo dá-nos uma autêntica chave de interpretação desta realidade: cada um de nós foi predestinado, foi escolhido desde toda a eternidade por Deus para uma missão geral e comum a todos – ser santos e irrepreensíveis em caridade – e para uma missão particular e própria de cada um. Nossa Senhora foi concebida sem pecado (Imaculada Conceição), foi concebida no amor de Deus para vir a desempenhar uma missão única e importantíssima: ser a mãe de Jesus, ser a Mãe de Deus, dando à luz o Messias e acompanhando-O amorosamente e como fiel discípula ao longo de toda a sua vida (no que contrasta com Eva, a mulher pecadora, figura de toda a humanidade que não é fiel à amizade de Deus). E é por isso, certamente, que em virtude da futura maternidade de Jesus, esta solenidade se celebra no Advento, como preparação próxima do nascimento do Salvador.

09/12/2018

Artigo do fr. Bento Domingues, op


Desistir da paz?

 

1. A exuberância poética do profeta Isaías distribuída pelas celebrações diárias do Advento exibe uma tal confiança no futuro que mais parece um delírio do desejo que gosta de se iludir, do que uma esperança razoável. Logo no 3.º dia, e nunca se cansará, garante que os povos vão dispensar os exércitos e as suas manobras. Os instrumentos de guerra vão ser reciclados e confiados aos ministérios da agricultura: converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices [1]. O Deus dos exércitos vai para o desemprego.

Tempos virão em que nem sequer será preciso pensar na reciclagem do exército. A justiça estará ao serviço dos infelizes do povo. Aos violentos e aos ímpios a própria palavra de Deus os modificará. A justiça e a lealdade serão a lei.

Até toda a natureza que se modificará. O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir. A vitela e a ursa pastarão juntamente, as suas crias dormirão lado a lado; o leão comerá feno como o boi. A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora.

Não mais praticarão o mal nem a destruição em todo o meu santo monte: o conhecimento do Senhor encherá o país, como as águas o leito do mar. Nesse dia, a raiz de Jessé surgira como a bandeira dos povos; as nações virão procurá-la e a sua morada será gloriosa [2].

O profeta quer que Deus seja o Senhor do universo e prepare para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos: comida de boa gordura, vinhos puríssimos. Destruirá a morte para sempre. Enxugará as lágrimas de todas as faces. Alegremo-nos e rejubilemos porque nos salvou [3].

O profeta Baruc não anda longe destes delírios: Jerusalém, deixa a tua veste de luto e aflição e reveste para sempre a beleza da glória que vem de Deus. Cobre-te com o manto da justiça. Deus te dará para sempre este nome: Paz da justiça e glória da piedade. Levanta-te, Jerusalém, sobe ao alto e olha para o Oriente: vê os teus filhos reunidos desde o poente ao nascente. Deus decidiu abater todos os altos montes, as colinas seculares e encher os vales para se aplanar a pedra, a fim de que Israel possa caminhar em segurança. Os bosques e todas as árvores aromáticas darão sombra a Israel. Deus o conduzirá na alegria, com a misericórdia e a justiça [4].

Esta selecção mostra o que abundava e o que faltava. Abundava a guerra, a injustiça e a fome que geravam a morte, a tristeza. Faltava a paz, o acesso à justiça para todos, a comida e a alegria. Dizer as coisas assim prosaicamente é não dizer nada. É a linguagem dos relatórios e das estatísticas. O próprio da linguagem simbólica, poética, é incendiar a imaginação, tornar possível o inalcançável. Dir-se-á que é uma forma de resvalar para a ilusão. Não creio que seja a linguagem do ópio. Não há ninguém que seja enganado pela literatura e, sobretudo, pela poesia. Esta é a linguagem humana que nenhuma riqueza ou pobreza poderá substituir. Fazer sonhar é o primeiro passo para a necessidade de agir.

2. Os autores do Novo Testamento, cada um com a sua originalidade, procuram mostrar que em Jesus Cristo o passado é assumido, reinterpretado e transformado. Não é reproduzido. Atribuem-lhe a expressão: disseram-vos, mas eu digo-vos.

A religião em que foi educado não abafou a sua criatividade, a sua liberdade, sobretudo quando essa religião matava a esperança dos mais pobres e criava toda a espécie de exclusões. Os evangelistas pretendem mostrar que Jesus incarnava, de forma inovadora, o anti-fatalismo dos profetas. Quando se dizia sempre assim foi, significava para o Mestre: tem de mudar!

No Antigo Testamento, apesar da corrente sapiencial, universalista, a corrente nacionalista, xenófoba, era a que prevalecia. A carta aos Efésios não pode ser mais clara: lembrai-vos de que nesse tempo estáveis sem Cristo, excluídos da cidadania de Israel e estranhos às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo. (...) Em Cristo Jesus, vós, que outrora estáveis longe, agora, estais perto, pelo sangue de Cristo. Ele é a nossa paz, de dois povos fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade. Na sua carne, anulou a lei, que contém os mandamentos em forma de prescrições, para, a partir do judeu e do pagão, criar em si próprio um só homem novo [5]. 

O versículo 10, que antecede esta passagem, faz uma declaração absolutamente espantosa: nós somos poema de Deus [6]. Não estraguemos a dignidade deste poema, escrita divina.

3. Segundo o panorama actual, verificamos que, em vários continentes, há dirigentes políticos que não desistem da guerra e que todos os pretextos são bons para declarações ameaçadoras. As pessoas podem morrer e morrem das formas mais inesperadas, mas o comércio das armas é que não pode morrer. É a lógica da centralidade absurda do dinheiro. Deixa de ser um instrumento para uma vida humana de qualidade, para se transformar no dono da vida e da morte. Aquilo que deveria ser um meio de desenvolvimento da ciência e da técnica para a felicidade de todos, transforma-se no poder de decidir a sorte da humanidade.

A Europa conheceu, num único século, guerras horrorosas, mas parece cansada da paz que conseguiu.

Está mais do que demonstrada a ferocidade que pode ser desencadeada entre pessoas, nações e povos. Essa todos os dias é patenteada, em diversos cenários de crueldade, com meios de comunicação que a celebram e a incitam ao seu motor: o ódio do outro. 

Importa investigar os mecanismos psicológicos, sociais, económicos e políticos que incitam à guerra e à paz. Foi possível subscrever a carta dos Direitos Humanos. Nunca se conseguiu assinar a dos Deveres.

O Papa Francisco enviou uma carta à Universidade Lateranense sobre ciclos de estudos interdisciplinares para multiplicar o número de pessoas especializadas nas Ciências da Paz. Havendo tantos meios para criar incitamentos ao ódio e à violência é fundamental preparar pessoas, grupos, instituições que tenham como objectivo a promoção da cultura da paz.

A Igreja dispõe de movimentos, de paróquias, de colégios, de universidades dedicadas à educação. Poderá desistir de fazer de todos esses meios centros de educação activa, interveniente na cultura da paz? Ou irá dispensar o Natal este ano?

 

 

Fr. Bento Domingues                                                                           in Público, 9/12/2018

 

[1] Is 2, 1-5
[2] Is 11, 1-10
[3] Is 25, 6-10
[4] Br 5, 1-9
[5] Cf Ef 2, 11-19
[6] Frederico Lourenço, em nota 2, 10 diz que, à letra, a tradução do grego é "nós somos poema d’Ele", Carta aos Efésios, Bíblia, vol. II

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