Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Maio 2026) por fr. José Nunes, op


17 DE MAIO - ASCENSÃO - ANO A

 

Depois de concluir o terceiro evangelho, o evangelista Lucas escreve os Actos dos Apóstolos, começando por narrar a Ascensão de Jesus ao céu, isto é, a experiência que os discípulos fazem da partida de Jesus após a sua morte: Ele já não vive, física e visivelmente no meio deles! Mas será que os discípulos ficam órfãos? Não: Jesus promete a sua presença, agora de modo diferente, em todas as situações e circunstâncias até ao fim dos tempos. E onde podem os discípulos de ontem e nós cristãos de hoje descobrir a Jesus presente? Olhando para o céu? Não. É na materialidade da vida bem concreta que podemos descortinar a presença calorosa e confortante de Jesus: através dos sacramentos, da vida comunitária em Igreja, do amor e amizade entre as pessoas, nas leis justas que se produzem, na prática da solidariedade, enfim, num sem números de experiências de sentido que, afinal, mais não que os sinais dos tempos.

Da carta aos Efésios destacam-se hoje duas ideias. Primeiramente, a ida de Jesus para junto do Pai como primogénito de muitos, isto é, a Ascensão ao céu revela o destino de todos nós: a vida eterna é o nosso destino, também a nós Deus nos quer no céu e participantes da alegria eterna. Isso é, para nós, motivo de júbilo e esperança. Em segundo lugar, estando no céu, junto de Deus, Jesus está acima de todos os potentados e potestades… e é uma força para o bem! Daqui nasce também mais confiança: não há qualquer poder do mal superior ao nosso Deus.

E o evangelho lembra-nos que a Ascensão é também uma festa missionária. Jesus vai para o céu e deixa um mandato missionário aos discípulos: eles são, a partir de agora, os continuadores da missão de Jesus – missão de pregar o evangelho, a Boa Nova. E essa missão, claro, é anúncio de Jesus e seu evangelho em todos os areópagos, é catequese e celebração de sacramentos… mas também é prática e testemunho de vida: «cumprir os mandamentos», ou seja, prática de caridade, promoção humana, profunda libertação. Como têm lembrado vários recentes documentos do Magistério, nomeadamente a Evangelii gaudium do papa Francisco, evangelizar é, em última análise, levar alegria, esperança e libertação a todas as pessoas e realidades.

 

 

11/05/2026

Artigo do fr. Bento Domingues, op


O SONHO DO PAPA FRANCISCO NÃO MORREU

  

1. O Papa Leão XIV convocou um consistório, uma assembleia (26 e 27 de Junho, 2026), para tratar da missão evangelizadora e da aplicação da Evangelii Gaudium, do Papa Francisco.

Viveram-se, na Igreja, épocas em que só se esperava, de Roma, condenações. Não me refiro, apenas, ao Syllabus Errorum, emitido pelo Papa Pio IX (08.12.1864) que reuniu, num só documento, 80 proposições que condenavam correntes filosóficas, políticas e religiosas consideradas incompatíveis com a Doutrina Católica. Tudo o que era do Mundo Moderno era considerado errado. Esta e outras atitudes do género levaram o Cardeal Martini, Bispo de Milão, a dizer, em 2012, que a Igreja está atrasada 200 anos. Era uma Igreja fechada.

João XXIII convocou o Concílio Vaticano II (1962-1965), precisamente, para abrir portas e janelas à liberdade. Não podemos esquecer que este concílio só foi possível com os teólogos que tinham sido condenados e humilhados por terem desencadeado e apoiado muitos movimentos inovadores. A teologia tornava-se um serviço concreto do povo cristão e dialogava com o mundo que tinha abandonado a Igreja.

O símbolo dessa nova teologia condenada foi Yves Congar, O.P., considerado o maior teólogo do século XX e que João XXIII fez dele o primeiro perito do Vaticano II. A ele se devem vários documentos. Entretanto o Papa do Concílio morreu (1963).

Passados alguns anos, da euforia do Vaticano II voltou-se ao tempo das condenações. A tal ponto que Karl Rahner, que também foi um grande perito do Concílio, dizer que se estava no inverno da Igreja.

Para surpresa do mundo laico e do conjunto da Igreja, é eleito o argentino Bergoglio, que vai buscar o nome do seu pontificado a Francisco de Assis. Era um programa pela Igreja pobre, com os pobres, ao serviço dos pobres. Antes, teve de limpar o Vaticano por causa dos escândalos de todo o género.

O seu traço dominante foi mostrar que a Igreja não é a hierarquia. Foi mesmo muito severo com os cardeais, praticando o que é atribuído ao santo Bartolomeu dos Mártires (1514-1590): Os eminentíssimos cardeais precisam de uma eminentíssima reforma. O vício de tomar a hierarquia como a Igreja continua, apesar de todos os esforços de Francisco e de Leão XIV.

2. O Papa Francisco veio de encontro ao desânimo que, depois deste Concílio, invadiu algumas expressões da Igreja e afastou muitos católicos que tinham acolhido o significado renovador de João XXIII. No entanto, inspirando-se nessa reunião magna do catolicismo do século XX, pela palavra, pelos gestos, pelas iniciativas, pelo bom humor, criou algo de muito novo, na linha de Francisco de Assis, a Evangelii Gaudium, isto é, o Evangelho de Cristo é uma alegria. «Cantai, ó céus! Exulta de alegria, ó terra! Rompei em exclamações, ó montes! Na verdade, o Senhor consola o seu povo e se compadece dos desamparados» (Is 49, 13).

Destaco algumas passagens desse documento, não para o substituir, mas para convidar à sua leitura na íntegra. Com efeito, diz que há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Compreendo as pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar, mas aos poucos é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como uma secreta mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias: «A paz foi desterrada da minha alma, já nem sei o que é a felicidade (…). Isto, porém, guardo no meu coração e mantenho a esperança» (cf. Jr 3).

Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar este apelo: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho.

A alegria do Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém. O Apocalipse fala de «uma Boa Nova de valor eterno para anunciar aos habitantes da terra: a todas as nações, tribos, línguas e povos» (Ap 14, 6). Constituamo-nos em «estado permanente de missão», em todas as regiões da terra.

O Concílio Vaticano II apresentou a conversão eclesial como a abertura a uma reforma permanente de si mesma por fidelidade a Jesus Cristo: «Toda a renovação da Igreja consiste essencialmente numa maior fidelidade à própria vocação. (…) A Igreja peregrina é chamada por Cristo a esta reforma perene. Como instituição humana e terrena, a Igreja necessita perpetuamente desta reforma».

O Papa Francisco confessa: sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado, mais à evangelização do mundo actual do que à auto-preservação.

O Bispo, na sua missão de promover uma comunhão dinâmica, aberta e missionária, deverá estimular e procurar o amadurecimento dos organismos de participação propostos pelo Código de Direito Canónico e outras formas de diálogo pastoral, com o desejo de ouvir todos, e não apenas alguns sempre prontos a lisonjeá-lo.

O que há de mais importante, no Novo Testamento, é a graça do Espírito Santo, não as leis eclesiásticas. Na pregação, isto é esquecido quando se fala mais da lei do que da graça, mais da Igreja do que de Jesus Cristo, mais do Papa do que da Palavra de Deus.

Ao mesmo tempo, as enormes e rápidas mudanças culturais exigem que prestemos constante atenção ao tentar exprimir as verdades de sempre numa linguagem que permita reconhecer a sua permanente novidade.

Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata.

Para manter vivo o ardor missionário, é necessária uma decidida confiança no Espírito de Deus, porque Ele «vem em auxílio da nossa fraqueza» (Rm 8, 26).

3. Em Evangelii Gaudium há expressões constantes: Igreja de saída; Igreja das periferias; Igreja, hospital de campanha; mas sobretudo, Igreja que trabalha pela Paz. Foi o que Leão XIV foi fazer a África.

Jorge Wemans[1] apresenta Um Papa em África para fustigar os tiranos e dar razões de esperança: O coração do nosso Pai não está com os ímpios, os tiranos, ou os soberbos (Argélia); Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para obter ganhos militares, económicos e políticos! (Camarões); Ai dos poderosos que exploram a violência para frustração da esperança de muitos (Angola); O Senhor vos ajude a trabalhar no serviço do bem comum e não nos interesses particulares, superando as desigualdades entre privilegiados e desfavorecidos (Guiné Equatorial).

De quem é esta voz que se ergue diante de dezenas de milhares de pessoas e que não vacila na presença de dirigentes políticos enriquecidos à custa da pobreza de povos coartados nas suas liberdades mais fundamentais? Em que comícios – gozando de uma súbita liberdade – foram aquelas frases proferidas?

O consistório, convocado para finais de Junho, não seria uma boa oportunidade de incluir a participação activa de membros do laicado? Creio que sim.

Fr. Bento Domingues in Público, 3/5/2026 

_____________ [1] 7Margens, 23.04.2026
03/05/2026

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