PREPARAR A PÁSCOA DO NOSSO MUNDO
1. É muito difícil darmo-nos conta da evidência. Para ver o que vemos seria necessário mudar os olhos, mudar o coração. O mundo que temos é um mundo descriado.
Segundo Frederico Lourenço, «O livro que abre a Bíblia é um dos textos mais extraordinários da cultura humana. Para lá das questões complexas atinentes à sua origem e autoria, dificilmente encontramos, na literatura mundial, uma narrativa mais fascinante e mais arrebatadora do que a contada no Livro de Génesis. (…) Génesis 1 oferece um relato optimista da criação, em que Deus cria um mundo belo e bom. O homem e a mulher são criados em simultâneo, à imagem de Deus. Génesis 2, por outro lado, apresenta uma narrativa não só incompatível com a anterior (a mulher é criada depois do homem), mas também menos optimista. O intuito em Génesis 2-3 é propor uma etiologia para aquilo que a observação empírica do mundo confirma: o mundo não é só belo e bom (como em Génesis 1), porque nele também existe o mal»[1]. Tem razão António Lobo Antunes: a vida humana é um mistério[2].
Em que mundo estamos?
Trump, Netanyahu, Putin e outros fazem da força o único argumento válido para governar o mundo, melhor dito, desgovernar o mundo. Essa atitude abre as portas para a barbárie. Os cristãos não podem fechar os olhos, como se temessem ser contaminados ou prejudicar a sua missão apostólica. Proclamar o Reino implica trabalhar pela paz, condenar a violência, exigir respeito pela dignidade humana e cuidar da nossa casa comum. As guerras de Putin, Trump e Netanyahu não são “guerras justas”, que não existem. São guerras inspiradas pela antiga mentalidade colonial, segundo a qual é legítimo saquear a riqueza alheia. Por trás de todas as guerras em curso, existe apenas um desejo obsceno de controlar petróleo, gás, minerais e rotas comerciais[3].
2. O Papa Leão XIV, na sua mensagem do Angelus do Domingo passado, a propósito da narrativa simbólica da cura de um pobre cego de nascença (Jo 9,1-41), lembra que, «enquanto nós estávamos nas trevas, enquanto a humanidade caminhava nas trevas, Deus deu-nos o seu Filho como luz do mundo, para abrir os olhos dos cegos e iluminar as nossas vidas.
«De facto, podemos dizer que todos nascemos cegos. Por nós mesmos não conseguimos enxergar toda a profundidade do mistério da vida. Por isso, Deus fez-se carne em Jesus, para que o barro da nossa humanidade, moldado pelo sopro da sua graça, recebesse uma nova luz, que nos torna capazes de, finalmente e em verdade, ver a Deus, os outros e nós mesmos.
«Irmãos e irmãs, nós também, curados pelo amor de Cristo, somos chamados a viver um cristianismo de olhos bem abertos. A fé não é um acto cego, uma renúncia à razão, uma disposição de certa convicção religiosa que nos leva a desviar o olhar do mundo. Pelo contrário, a fé ajuda-nos a ver o ponto de vista de Jesus, com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver. Pede-nos que abramos os olhos, como ele fez, sobretudo para os sofrimentos dos outros e as feridas do mundo.
«Hoje, em particular, diante das muitas questões do coração humano e das situações dramáticas de injustiça, violência e sofrimento que marcam o nosso tempo, precisamos de uma fé desperta, atenta e profética que nos abra os olhos para as trevas do mundo e leve a luz do Evangelho através de um compromisso com a paz, a justiça e a solidariedade».
Seria bom reler o diálogo entre o filósofo Jürgen Habermas – que acaba de nos deixar – e Joseph Ratzinger, em Munique (2004), sobre a origem dos valores universais. Habermas defendia que eles eram produto de processos deliberativos e não de um mandato sobrenatural. Ratzinger apontou que essa abordagem ocultava o perigo de tornar as maiorias a única fonte de legitimidade, o que não garantia o respeito incondicional da dignidade humana. Ambos concluíram o encontro, reconhecendo que as expressões da fé e da razão devem autocriticar-se para evitar cair na intolerância.
Para aqueles que não têm fé, Ratzinger e Habermas são agora apenas uma lembrança na consciência colectiva. Aqueles de nós que ainda nutrem a esperança de um amanhã, além do tempo e do espaço, acreditam que o filósofo e o teólogo podem continuar o seu diálogo, sem as limitações impostas pela implacável biologia.
3. Consta que o Papa está a finalizar uma Encíclica com o nome Magnifica Humanitas.
Certos meios tradicionalistas esperavam e lutavam, com grandes recursos financeiros, para que, a seguir ao Papa Francisco, fosse escolhido outro de uma linha e uma prática que negassem a herança magnífica de Bergoglio. Aconteceu precisamente o contrário com a eleição do Papa Leão XIV. Desde a primeira hora, com um estilo próprio, afirmou e praticou um caminho nos passos de Francisco.
Algumas correntes tradicionalistas não se deram por vencidas. Renovaram os seus esforços e tentativas para mostrar que o Vaticano e a sua orientação eram obra do Anticristo. Era urgente atacar o Vaticano no coração de Roma. Pensaram e tentaram até manipular – sem sucesso – a Universidade de São Tomás de Aquino, Angelicum, onde tinha sido doutorado Leão XIV.
Segundo José Lourenzo, um jornalista bem informado, o tecnoligarca Peter Thiel, que financia Trump, teria chegado a Roma com suas teorias sobre o Anticristo. Thiel, fundador da poderosa empresa de análise de dados que agora está a ser usada na política de deportação em massa do seu amigo Donald Trump, é também um dos maiores opositores de Leão XIV, assim como o foi de Francisco, porque eles representam tudo o que se opõe aos seus interesses[4].
A celebração da Eucaristia envolve sempre a chamada Liturgia da Palavra Bíblica. Tem razão Santo Agostinho ao dizer que é impróprio afirmar que os tempos litúrgicos são três: passado, presente e futuro. Talvez fosse mais adequado dizer: presente das coisas passadas, presente das presentes e presente das futuras. Para São Tomás de Aquino, o Mistério Pascal não é sobre o passado. É um passado que atinge, de forma presencial, todos os tempos e lugares[5].
Hoje é o V Domingo da Quaresma. O texto do Evangelho é de S. João. É um texto difícil, mas é preciso estar atento, respeitando e aprofundando o estilo do autor. É habitual falar da Palavra de Deus. É uma expressão verdadeiramente bíblica. Não devemos, porém, cair no ridículo de imaginar Deus a abrir a boca e a discursar como fazem os autores do Antigo e Novo Testamentos. O que importa é acolher a mensagem, o sentido dos textos porque é sempre Palavra de Deus em palavras humanas, segundo o estilo e a construção literária de cada um dos autores.
No Novo Testamento, temos várias narrativas de “ressurreições” (ou reanimações). Todas elas existem para nos ajudar a preparar a Páscoa de Cristo, nossa Páscoa.
Fr. Bento Domingues in Público, 22/3/2026
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[1] Frederico Lourenço, Bíblia. Antigo Testamento, Vol. VI, Quetzal, p. 27
[2] Cf. António Lobo Antunes, Quarto Livro de Crónicas, D. Quixote, 2ª ed. 2011, pp.237-239
[3] Cf. Rafael Narbona, RD, 12.03.2026
[4] Já tinha terminado esta crónica, quando li o texto bem informado de João Pedro Pereira, no Público, 16.03.2026
[5] Suma Teológica III, q. 48, a. 6; p. 56, a. 1