Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Abr. 2026) por fr. José Nunes, op


26 DE ABRIL - 4º DOMINGO DA PÁSCOA - ANO A

 

O quarto domingo do tempo pascal está sempre reservado ao «Bom Pastor», cada ano celebrado e meditado através de um excerto do capítulo 10 do Evangelho de S.João. E falar do Bom Pastor é falar de Jesus, claro, e também do ‘bom pastor’ que todos nós somos chamados a ser: os padres que estão à frente de comunidades, os catequistas que estão à frente de grupos, os pais que têm de guiar os filhos, os professores que têm de conhecer e ensinar o seu rebanho (os alunos), etc, etc.

Quanto a Jesus, o Bom Pastor e modelo para todos os ‘pastores’, Ele guia as ovelhas (todos nós) e leva-as para os bons caminhos e boas pastagens (para termos vida em abundância), por isso também é a Porta, porta pela qual, ao entrarmos, temos acesso a esse caminho de vida feliz e com sentido, a essa vida verdadeira de alegria no serviço aos outros. O Bom Pastor também faz ouvir a sua voz! E isso é motivo para nos questionarmos: será que ouvimos a voz de Jesus no meio de tanto ruído que existe na sociedade? O ruído das conversas demagógicas, o ruído das promessa vãs, o ruído de tantas propostas de consumismo… Tanto ruído a distrair-nos do essencial, da voz de jesus e do seu Evangelho…!

Quanto às outras leituras de hoje, temos um maravilhoso e poderoso discurso de Pedro, no livro dos Actos dos Apóstolos: Jesus foi um homem bom mas não foi aceite por muitos, os quais, então, devem arrepender-se, converter-se, baptizar-se e, assim, receber o Espírito Santo. Do mesmo modo, todos nós fizemos, ainda há pouco, a renovação das promessas baptismais… portanto, não voltemos atrás, ao paganismo, à vida do homem velho.

E, na segunda leitura, temos uma vez mais Pedro como protagonista, através de uma carta que escreveu e onde continua aquela reflexão que já aparecia no livro dos Actos: quem foi baptizado e é cristão passa a ver as coisas de outra maneira: agora tem paciência, esperança, não reage com violência, recusa as injúrias e a mentira. Comporta-se, afinal, à maneira de Jesus e, por isso, vive uma vida nova, vive a vida do Homem Novo!

20/04/2026

Artigo do fr. Bento Domingues, op


MEMORIAL DESTA PÁSCOA

  

1. Continuamos a celebrar o tempo pascal. Como já escrevi, nestas crónicas, todos os Domingos deveriam ser pascais, afectando todos os dias da semana. De forma muito solene, «todos os anos, relembra-se a paixão e a ressurreição de Jesus como algo que está a acontecer dentro de cada pessoa, em tempo real», como disse Frederico Lourenço, em entrevista à Ecclesia (05/04/2026). As celebrações da fé cristã não podem ser indiferentes aos acontecimentos contemporâneos das sociedades.

Os meios de comunicação social têm revelado a brutalidade das guerras. O Papa Francisco já tinha alertado o mundo de que estávamos a viver uma terceira guerra mundial aos pedaços. Os acontecimentos deste tempo pascal mostram que já estamos em guerras que tocam o mundo inteiro.

António Barreto, colunista do Público, sintetizou a situação mundial em que nos encontramos: «Sabemos que os próximos tempos vão ser difíceis. A situação na Europa, no Próximo Oriente, na Ucrânia e na Rússia, para já não falar da África, é de horror e terror. Economias de rastos. Custo de vida explosivo. Os piores conflitos armados desde há décadas. As duas grandes potências militares, Estados Unidos e Rússia, envolvidas em terríveis guerras. Crise de energia sem dúvida. Crise nas bolsas, no comércio e nos transportes internacionais. Fome e guerra civil em África. Movimentos militares em vários continentes. Há muitas décadas que não se via nada parecido».

Para conhecer a polémica entre Trump e o Papa Leão XIV pode ler também, no Público (13.04.2026), a notícia: Trump diz que Papa é “péssimo” e Leão XIV promete continuar a defender a paz.

 Leão XIV, que ressalvou não querer entrar em debate com o Presidente dos EUA, não se coibiu de condenar a forma como “a mensagem do Evangelho” está a ser “tratada de forma abusiva”. E garantiu que se continuará a “manifestar veementemente contra a guerra, procurando promover a paz, o diálogo e as relações multilaterais entre os Estados, para encontrar soluções justas para os problemas”.

“Há demasiadas pessoas a sofrer no mundo de hoje, demasiadas pessoas inocentes estão a ser mortas. E acho que alguém tem de se levantar e dizer que há uma maneira melhor. A mensagem da Igreja, a minha mensagem, a mensagem do Evangelho: bem-aventurados os pacificadores”, declarou.

O arcebispo de Washington, cardeal Robert McElroy, manifestou que, neste momento crítico, «como discípulos de Jesus Cristo chamados a ser pacificadores no mundo, devemos responder em voz alta e em uníssono: Não. Não em nosso nome. Não neste momento. Não com o nosso país».

É neste mundo que nos cabe dar testemunho da fé cristã. Infelizmente, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) perdeu-se, ao não se confrontar com os meios de comunicação sobre as vítimas de abusos sexuais e não só, antes de tomar decisões que considera irreversíveis. Agora, não se pode queixar da liberdade de quem comenta e contesta essas decisões. O poder exclusivo de uma instituição, como a CEP, mostra-nos que esse é o caminho da perdição. Não foi um bom serviço que prestou à vocação da Igreja que existe para ajudar todas as pessoas, sobretudo as mais afectadas por comportamentos vergonhosos, dentro e fora da Igreja.

2. Não podemos ficar colados aos tristes comportamentos que ofendem o sentido cristão da Páscoa. O próprio do cristianismo é um processo de conversão permanente, a nível individual e comunitário, de conversão aos caminhos da alegria. Nietzsche dizia que os cristãos estavam sempre em sexta-feira santa. Esquecia que também esse dia é por causa da nossa alegria, da nossa libertação. A tristeza não pode ser celebrada.

O antropólogo e músico, Alfredo Teixeira, que tem musicado vários poemas de José Augusto Mourão, O.P. (1947-2011), nesta Páscoa, publicou, no 7Margens, um texto construído com essa singular poesia. Deixo, aqui, extractos desse poema pascal.

Não pode a morte reter-me na cruz / Não pode o mundo arrancar-me à raiz. / Não poderá corromper-se a alegria / Não pode o fogo extinguir-se no céu. / Não pode a morte apagar o desejo / De ver a Deus face a face e viver. / A Deus busquei toda a vida e vivi / De acreditar no infinito da vida. / Já ouço a voz do Senhor Deus dos vivos / Já ouço a voz do amigo que vem. 

«A esperança cristã não se constrói no exílio da experiência do mundo, mas por meio dela, afinando a escuta para os sons que não se impõem pela evidência. A linguagem da amizade corrige a tentação de imaginar Deus como distância absoluta».

3. A arte de entrosar o passado e o presente foi-nos oferecida, de forma divertida, pelo evangelista S. Lucas[1]. Escreveu um conto – os Discípulos de Emaús – como se fosse acerca do passado para dizer o que sempre acontece numa verdadeira comunidade cristã. Imaginou dois dos discípulos, tristes e desiludidos pelo que aconteceu ao seu Mestre e sem esperança na ressurreição prometida. O interessante do conto é que o próprio Jesus entrou no grupo e na discussão do que tinha sido o seu julgamento. Eles estranham a ignorância e a distracção deste forasteiro e explicaram-lhe, com todos os pormenores, o que lhe tinha acontecido. Este mostra-se muito interessado. Acabam por acrescentar: é verdade que algumas mulheres, que são dos nossos, nos assustaram; foram ao sepulcro e vieram dizer que tiveram umas visões e que Ele está vivo. Os homens verificaram a narrativa das mulheres, mas não O viram.  

Aí, o forasteiro explicou-lhes que não estavam a entender o que tinha acontecido. Não se dá por achado e explicou-lhes, a partir das Escrituras, o que a esse estranho personagem dizia respeito. Estando os discípulos perto da aldeia para onde iam, Jesus fez de conta que seguia viagem. Pediram-lhe para ficar com eles, pois já era tarde. Ficou e tomou conta da casa e da mesa. Tomou o pão partiu-o, distribuiu-o e deixaram de O ver. O espanto: enquanto O viram, não O viram. Quando O não viram, reconheceram-no no gesto eucarístico, ao partir o pão.

Este é um verdadeiro conto exemplar. Jesus Cristo é o clandestino da vida humana. Não damos por Ele, mas Ele anda sempre connosco. A celebração da Eucaristia implica uma ponte entre o quotidiano e a celebração. Mas sem o acolhimento do desconhecido não acontece nada. Certamente que Jesus não tinha uma forma especial de partir pão. Mas é Ele que é o pão da vida. A celebração semanal da Eucaristia serve para não perder a memória de Jesus, a transformação do presente e a abertura à esperança.

Pertence ao memorial desta Páscoa o grande livro de Miguel Oliveira da Silva[2]. A Páscoa em andamento, a Páscoa que tem futuro, é a do Papa Leão XIV, em missão pela África explorada. Bendita a hora em que foi eleito!


Fr. Bento Domingues in Público, 19/4/2026 

_____________ [1] Lc 24, 13-35 [2] 50 Anos de Educação sexual e contracepção em Portugal, Caminho 2026
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