Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Julho 2019) por fr. José Nunes, op

 

14 Julho – XV Domingo do Tempo Comum – Ano C

O livro do Deuteronómio fala-nos da Lei de Deus, dos Seus mandamentos: que os havemos de escutar e praticar, até porque não são difíceis nem estão acima das nossas forças. Mais: estão bem perto da nossa boca e do nosso coração, isto é, são o que de mais profundo e íntimo existe em nós como clamor e aspiração, constituem o modo de viver que mais nos proporcionará felicidade e gozo de viver! Os mandamentos de Deus, pois, não são um fardo pesado que tenhamos de cumprir; são, isso sim, uma ajuda muito útil que Deus nos dá para nos fazer felizes através da sua prática.   São Paulo, na carta aos Colossenses, adverte-nos para uma realidade muito importante da nossa fé: acreditamos num só Deus, único Criador e, por isso, o Todo-Poderoso, que está acima de todas as outras realidades que existem, que não são deuses mas sim criaturas! Então não há que ter medo de ‘forças misteriosas’, venham elas de onde venham. Não há que ligar a magias, a superstições, a energias negativas, etc, etc… É verdade que existe o bem e existe o mal; mas a força maior que existe é a do Bem, é o próprio Deus em quem havemos de por sempre a nossa inteira confiança!   Da conhecida parábola do Bom Samaritano, destacaremos hoje três pequenas notas: 1ª) A religião cristã não é meramente especulativa nem contemplativa: tem uma dimensão operativa. Não é só palavras ou rezas, é acção, é fazer, é prática. Não basta saber de cor os mandamentos de Deus: há que vivê-los! 2ª) O próximo não é apenas quem está ao meu lado, aquele que foi colocado perto de mim: o meu próximo é aquele de quem me aproximo, é aquele de quem me faço próximo, aquele por quem me interesso, aquele que escuto nos seus anseios, aquele a quem presto auxílio material ou ajuda espiritual; 3ª) A prática do bem, o amor ao outro, vem muitas vezes de quem menos se espera… vem de quem menos teria ‘obrigação’ para tal. Na parábola de hoje, não foram os santos, os mais puros, os sacerdotes ou levitas que fizeram o bem: foi o impuro e pecador ‘estrangeiro’, o samaritano que praticou a misericórdia. Também nós, cristãos, nós Igreja, deveríamos rejeitar todo o triunfalismo ou espírito de superioridade face a muitos outros que, afinal, constituem um exemplo de vida evangélica para nós próprios.

 

 

 

13/07/2019

Artigo do fr. Bento Domingues, op


A Fé Cristã num Colégio Católico

 

1. Neste texto, não pretendo abordar as questões gerais do ensino, em Portugal. Não é da minha competência. Pediram-me para tratar do que exige a fé cristã de um Colégio Católico.   É suposto estes colégios terem alguma referência ao Secretariado Nacional da Educação Cristã. Isto não impede que as orientações de cada instituição, com as suas tradições e práticas educativas, possam ser bastante diferentes.    As escolas, segundo os habituais rankings, são classificadas, bem ou mal, pelos resultados académicos. Nunca dei conta que a Religião contasse para esse efeito. Falo de religião em sentido genérico sem, para já, apreciar as tendências dentro deste fenómeno social que, no Ocidente e nomeadamente em Portugal, é cada vez mais investigada pela Sociologia(1).   A Igreja Católica, sobretudo em alguns países do Ocidente, vê-se confrontada com a declaração: “espiritual sim, religioso não”. Uma sondagem do ano passado, na Alemanha, referente ao ensino religioso e ético, dava os seguintes resultados: 52% acredita em Deus, mas só 22% se declara religioso. “Crentes” são o dobro. O facto de haver pessoas que se definem “espirituais” e não “religiosas” ainda não é um fenómeno de massas. É uma minoria, entre os 6 e 13%, mas é uma tendência que se vai afirmando sobretudo entre os jovens.    É preciso ter em conta que, quando, no Ocidente, se fala de religião, a maior parte das pessoas pensa no Cristianismo, nas grandes Igrejas com os seus dogmas e os seus ritos. A distinção entre espiritual e religioso exprime a tentativa de preferir formas de religiosidade que não têm uma conotação eclesial. As normas respeitantes à fé, sentidas como obrigatórias, contam apenas para um número cada vez menor de pessoas. Neste contexto, a expressão mais usada é a de mercado ou mosaico das religiões, seja qual for a sua origem(2).    A Religião é considerada tão privada – cada um tem a sua ou não tem nenhuma – que, mesmo nos colégios católicos, não conta para os seus rankings. Nestes existe, no entanto, uma disciplina, com carga horária, chamada Educação Moral e Religiosa Católica.    2. Quando os colégios tinham regime de internato, ouvi dizer muitas vezes a quem viveu nesse quadro: já tenho missas para o resto da vida. Como dizia o célebre Bispo de Viseu, D. António Alves Martins, a religião deve ser como o sal na sopa: nem de mais nem de menos. Um remédio medíocre contra o aborrecimento.   A verdade é que encontrei, ao longo da vida, pessoas que frequentaram colégios e seminários que conservavam más recordações da religião que lhes era imposta. Isto não significa que não houvesse, também, pessoas agradecidas por essa rigidez disciplinar. Essas reacções, por vezes, manifestavam temperamentos: as alunas/os de carácter mais submisso ou mais rebelde.   Excepto aqueles casos, que de educadores só tinham o nome, pois eram doentios com os educandos, sempre ficou uma boa recordação dos mestres que o eram e da qualidade do ensino e, sobretudo, do sentido da justiça(3).   O que me impressiona é que, na escolha dos professores de Educação Moral e Religiosa, não haja, pelo menos, o cuidado que existe com os professores de matemática e de português.   Num colégio católico devia existir – e em muitos casos talvez já exista – uma equipa pastoral que reúna professores de psicologia, de ciências e literatura para evitar o desfasamento entre o crescimento académico e o crescimento da fé e das suas razões. De outro modo, quando os alunos ouvem nas aulas de Religião narrativas bíblicas sobre a criação, por exemplo, e nas de ciências estudam as teorias da evolução, quem fica a perder é a religião, a linguagem do inverosímil. Parece que não se aprendeu nada com os embates entre a religião e as ciências do passado. Galileu e a Inquisição! Esquece-se, porém, que a teoria do Big-Bang é de um padre, professor da Universidade Católica de Lovaina. A tão falada contradição entre religião e ciência só pode ser fruto da ignorância nos dois campos.    A procura da excelência no ensino tem de ser o cuidado de todos, seja qual for a sua orientação. Esta procura não pode abrandar quando se trata do ensino religioso. Convém não esquecer aquilo que S. Tomás dizia: se sei e digo de cor o Credo, estou a confessar a fé católica, mas se não procuro saber como é verdade aquilo que confesso ser verdade, estou certo, mas de cabeça vazia. Isto era da Idade Média! Agora, o ambiente que se respira não é o da Cristandade. O dom da fé ou é cultivado ou desaparece. Importa criar um ambiente em que a fé cristã surja como uma fonte de alegria. Como dizia S. João(4), isto vos escrevemos para que a vossa alegria seja completa.   3. A educação cristã da fé exige a descoberta progressiva de Jesus Cristo como sentido, como beleza, como responsabilidade da vida e para a vida. Para realizar essa descoberta progressiva, a filosofia, as ciências, a estética e a ética devem andar bem casadas. Como os bons casamentos, também conhecerá as suas turbulências amistosas.    A linguagem simbólica da fé cristã não apaga o pensamento nem a investigação. A linguagem simbólica nasce de fontes profundas. Não pode ser usada como um calmante. Ela é um excitante de todas as manifestações da vida verdadeira. Dá sempre muito que sonhar e pensar.   A expressão estética dos símbolos da fé provocou e convocou, ao longo da história, a grande música, a grande poesia, a grande pintura e a grande arquitectura.   As celebrações, as orações e as múltiplas expressões da espiritualidade, de um colégio católico, devem merecer um tal cuidado, uma tal participação, que se tornem apetecidas e interpelantes.   Um colégio católico deve ser um laboratório da descoberta e da experimentação da fé cristã. Esta exige o respeito prático do pluralismo religioso. A educação para a tolerância, para o diálogo, para a descoberta do outro é o melhor clima para esse laboratório.       Fr. Bento Domingues in Público, 21/7/2019 _____________ [1] Cf. Alfredo Teixeira, Coord., Inquérito Identidades religiosas em Portugal, CERC-CESOP (2011); Identidades religiosas na Área Metropolitana de Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2019; Alfredo Teixeira, Religião na Sociedade Portuguesa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2019. [2] Cf. Christoph Paul Hartmann, in Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, 13. 07. 2019. [3] Cf. Agustina Bessa-Luís, Contemplação carinhosa da angústia, Guimarães Editora, 2000; em sentido contrário, Miguel Sousa Tavares, Cebola Crua Com Sal e Broa, 2018. [4] 1Jo 1, 1-4
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