Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Fev. 2026) por fr. José Nunes, op


8 DE FEVEREIRO - 5º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

 

Os profetas em geral – e Isaías não é excepção – são muito claros na exigência moral aos membros do povo de Deus. E uma dessas exigências prende-se com a questão da coerência entre a crença na Lei e Mandamentos de Deus e a sua prática na vida quotidiana. Alguém só será luz se fizer obras de misericórdia, se for solidário e atento aos carenciados. Já Jesus, mais tarde e nos evangelhos, dirá: «não é o que diz Senhor, Senhor, que entrará no Reino dos céus, mas o que cumpre a vontade de meu Pai que está nos céus». A religião bíblica (e também a cristã, por continuidade) é uma religião de obras, de práticas, é religião operativa e transformadora. Claro que outras grandes tradições religiosas da humanidade também o são. Muito bem. Não queremos ser exclusivos… E então até poderemos todos colaborar, em clima de diálogo inter-religioso, em obras de promoção humana e desenvolvimento.

Na segunda leitura, S.Paulo diz que confia na força da Palavra de Deus e não na sua palavra ou nas suas técnicas de evangelização, mais ou menos persuasivas, com maior ou menor sucesso. Importantíssima lição para nós e para a Igreja na sua tarefa evangelizadora: em primeiro lugar, há que centrar-se em Jesus e no seu evangelho (mais do que em mandamentos ou listas de pecados ou orações pietistas ou conversas moralistas…); em segundo lugar, apesar de os meios e as técnicas evangelizadoras serem importantes, há que não esquecer o conteúdo da mensagem! Dêmos um exemplo: não é tão frequente depararmo-nos com sites na internet ou ‘power points’ muito belos e bem construídos e, afinal, cujos conteúdos são de uma pobreza confrangedora?

Quanto ao evangelho de hoje, temos a bonita e célebre frase de Jesus: «sois o sal da terra e a luz do mundo». O verdadeiro sal e luz são Jesus e o seu Evangelho, e nós também o seremos se dermos ao mundo o sal e a luz que são o Evangelho de Jesus! E ele iluminará todas as coisas e realidades: a política, as artes, o trabalho, a vida da família, etc. O Evangelho é, de facto, o sal que dá sabor à vida, que traz a alegria e o sentido no viver. Por outro lado, o sal serve também para conservar os alimentos. Por isso o Evangelho (e a Igreja na sua missão de anunciá-lo) conservará tudo o que é bom, não destruirá nada do que é bom na vida, no planeta, nas pessoas e nas suas (boas) obras!

02/02/2026

Artigo do fr. Bento Domingues, op


 VIVER, PRATICAR E CELEBRAR A FRATERNIDADE

  

1. A Bíblia não é um livro, é uma biblioteca. A Igreja Católica reconhece 73 livros, divididos em 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo. São um testemunho escrito acerca de Deus e da Criação, revelado em Jesus Cristo, mistério da Terra e do Céu.

Como diz S. João, no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e Deus era o Verbo. Este            estava no princípio com Deus.            Todas as coisas existiram por acção dele e sem ele nada veio à existência.            Nele estava a Vida e a Vida era a Luz dos seres humanos.            A Luz brilha na escuridão e a escuridão não dominou a luz. (…) Porém, quantos o receberam, a esses deu licitude de se tornarem filhos de Deus[1].

Hoje, na Igreja Católica, a celebração dominical da Eucaristia procura ser fiel a essa realidade múltipla. O subsecretário do Dicastério para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos (Santa Sé) destacou, em Braga, que a Liturgia nunca pode ser vista como uma peça de museu, apelando a uma criatividade na fidelidade para garantir a participação dos fiéis. A Igreja entregou-nos a Liturgia, mas não é uma Liturgia monolítica, fossilizada, deve ser uma Liturgia que muda de acordo com as necessidades dos fiéis.

A primeira leitura é do profeta Isaías que não nos deixa no vazio. Testemunha que o jejum que agrada a Iavé consiste em repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão.            Então, a tua luz surgirá como a aurora e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua justiça irá à tua frente e a glória de Iavé atrás de ti.            Então, invocarás Iavé e Ele te atenderá, pedirás auxílio e te dirá: «Aqui estou!» Se retirares da tua vida toda a opressão, o gesto ameaçador e o falar ofensivo,            se repartires o teu pão com o faminto e matares a fome ao pobre, a tua luz brilhará na tua escuridão e as tuas trevas tornar-se-ão como o meio dia[2].

O profeta Miqueias apontou o essencial do profetismo bíblico: Já te foi revelado, ó homem, o que é bom, o que Iavé requer de ti: nada mais do que praticares a justiça, amares a lealdade e andares humildemente diante do teu Deus[3].

2. A liturgia cristã não pode ser um exercício de retórica com sublimidades de linguagem, aparentando uma grande sabedoria humana. O pregador não pode esquecer que lhe pertence anunciar o mistério de Deus, revelado em Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado. S. Paulo confessa que a sua palavra e a sua pregação não resultam da sabedoria humana, mas é uma manifestação do Espírito Santo, poder de Deus[4].

Por outro lado, o anúncio do Evangelho tem de ser saboroso, que dê gosto em aprofundar o sentido da Palavra que testemunha a alegria de Deus. Jesus usa expressões caseiras para falar da vida saborosa e iluminada e iluminante.  Não se pode parecer como uma comida sem sal ou como uma casa às escuras.

Se os discípulos são o sal da terra e a luz do mundo, ao transmitirem o gosto de viver, não se podem deixar corromper. Seria perder tudo. Pois, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser desprezado. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro e, assim, alumia todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos seres humanos, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu[5].

A grande responsabilidade dos discípulos é fazer brilhar a Palavra, não é esconderem-se, mas navegar nas tempestades actuais, centrados no Evangelho e na pessoa de Cristo, mesmo perante as suas próprias divisões e desafios, como disse o cardeal dominicano, Timothy Radcliffe.

A vida das comunidades cristãs, tanto no quotidiano da vida como nas suas celebrações, deve ser uma alegria. Como diz S. Tomás de Aquino, «A tristeza é, entre todas as emoções, a que mais dano causa ao corpo. Justamente porque a tristeza se opõe à vida humana quanto ao seu movimento (isto é, quanto ao movimento que a alma lhe imprime)»[6].

3. Perante a escuridão do nosso tempo, Leão XIV, na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, insiste numa paz desarmada e desarmante e não na corrida ao armamento. Esta mensagem não pode ficar adormecida no primeiro dia de 2026.

«Na verdade, o contraste entre as trevas e a luz não é apenas uma imagem bíblica para descrever o sofrimento do qual está a nascer um mundo novo: é uma experiência que nos atravessa e nos surpreende diante das provações que encontramos, nas circunstâncias históricas em que vivemos. Ora, para não afundarmos na escuridão, é necessário ver a luz e acreditar nela. Trata-se de uma exigência que os discípulos de Jesus são chamados a viver de maneira única e privilegiada, mas que, de muitas maneiras, sabe abrir caminho no coração de cada ser humano. A paz que deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e vence-a».

Cristo é a nossa paz porque, na sua pessoa, no seu agir, é a reconciliação da humanidade com Deus, derrubando as barreiras de inimizade entre os povos e as religiões. Tudo Nele respira vontade de destruir o ódio e promover a amizade e a paz.

A sua presença, o seu dom e a sua vitória brilham na perseverança de muitas testemunhas, por meio das quais, a obra de Deus continua no mundo, tornando-se ainda mais perceptível e luminosa na escuridão dos tempos.

Entre vários outros, dispomos de dois textos luminosos do nosso tempo e para o nosso tempo. São eles o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum, assinado, em Abu Dhabi a 4 de Fevereiro de 2019, pelo Grande Imame de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyib e pelo Papa Francisco (1936-2025). Este Papa, inspirado no Evangelho e na figura de Francisco de Assis (1181?-1226), escreveu a célebre Fratelli Tutti, apresentada junto do túmulo deste santo a 3 de Outubro de 2020. Deles se pode dizer que são sal da terra e luz do mundo.

Francisco de Assis, dirigia-se aos seus irmãos e irmãs para lhes propor uma forma de vida com sabor a Evangelho. Destes conselhos, quero destacar o convite a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço; nele declara feliz quem ama o outro, «o seu irmão, tanto quando está longe, como quando está junto de nós». Com poucas e simples palavras, explicou o essencial duma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas, independentemente da sua proximidade física, do ponto da terra onde cada uma nasceu ou habita[7].

Não se trata apenas de acolher e ler belos textos, mas de transformar e ajudar a transformar a vida de todos os dias nas suas diversas dimensões.

   

Fr. Bento Domingues in Público, 8/2/2026     _____________ [1] Jo 1, 1-12, Tradução de Frederico Lourenço, Os quatro Evangelhos, bilingue, Quetzal 2024. [2] Is 58, 7-10 [3] Miqueias 6, 8 [4] 1Cor 2, 1-5 [5] Mt 5, 13-16 [6] Suma Teológica, I-II, 37 [7] Fratelli Tutti, nº 1

 

08/02/2026

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