AS PAIXÕES QUE AGITAM A IGREJA
1. Foi precisamente em Lampedusa que o Papa Francisco realizou, há 13 anos, a sua primeira visita pastoral fora de Roma, escolhendo um lugar situado nas periferias da Europa para denunciar a tragédia das migrações e lançar um dos conceitos que marcou todo o seu pontificado: a globalização da indiferença.
Treze anos depois, o Papa Leão XIV foi a esta ilha italiana onde, desde há anos, chegam vivos e mortos dezenas de milhares de migrantes na esperança de encontrarem uma porta para a Europa. Hoje como ontem o mesmo drama. O Mediterrâneo transformou-se num grande cemitério sem lápides.
Em Lampedusa, Leão XIV marcou a essência do cristianismo: Não há amor a Deus sem amor ao próximo e não há próximo se eu não me aproximar[1]. Temos de trabalhar, de lutar e rezar para que os migrantes deixem de ser estranhos e passem a fazer parte da nossa sociedade, como diz Pedro Góis[2].
Estas iniciativas são próprias de uma Igreja de saída para as periferias, para todas as periferias existenciais. É uma expressão do Papa Francisco que Leão XIV adoptou.
Uma periferia, no interior da Igreja, que é preciso vencer sãos as próprias mulheres. Há uma questão que incomoda a teóloga Sónia Monteiro: Qual o papel das mulheres na Igreja? Na situação actual, devemos fazer a pergunta ao contrário: Qual o papel do homem na Igreja? Não há um baptismo para homens e outro diferente para mulheres! A palavra homem, sem o pretender, é uma expressão de exclusão. Nas celebrações litúrgicas, é valorizado Deus e os homens. Não é Deus e as mulheres, quando são elas a maioria.
Como os padres foram formados por homens é difícil usar a expressão sinodal: mulheres e homens. A tarefa que Sónia Monteiro propõe é desmasculinizar a Igreja que exige uma mudança não só nas estruturas, mas também nas comunidades e na formação dos presbíteros[3]. Não podemos cair no sempre assim foi, denunciado por Francisco e recusado por Leão XIV.
No entender do jornalista José Manuel Vidal, «o clericalismo não é apenas um vício moral. É também uma heresia eclesiológica. E o púlpito fechado aos leigos é o seu monumento mais visível». Não se percebe a determinação que nega a possibilidade de homilias feitas por leigos/as. O desejável é a multiplicação de pessoas cristãs, não só consumidoras, mas testemunhas anunciadoras do Evangelho. A teologia não é um luxo. Segundo S. Pedro, é uma obrigação: estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança, sem arrogância.
2. Não basta insistir no que ainda não existe e esquecer o que está a ferver em muitos aspectos da vida da Igreja. O próprio Vaticano já nomeou várias mulheres para cargos de responsabilidade. Refiro alguns casos exemplares, correndo o risco de pensar só nessas mulheres e não nas que, efectivamente, mantêm viva a chama das igrejas locais: Maria Montserrat Alvarado (comunicações – primeira leiga), Simona Brambilla e Tiziana Merletti (Discatério da Vida Consagrada), Raffaella Petrini (Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano), Nathalie Becquart (Sínodo dos Bispos), Alessandra Smerilli (Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral) e Cristiane Murray (Sala de Imprensa do Vaticano).
Mais importante ainda seria descobrir o que está a acontecer nos movimentos, paróquias e dioceses. O Sínodo já percorreu várias etapas, mas seria interessante saber o que escandalosamente não agita as comunidades, não caminha junto, resistindo à mudança. Como diz o escritor Stephen R. Covey, «a maioria de nós não escuta com a intenção de entender. Ouvimos com a intenção de responder».
No momento em que o Vaticano reuniu budistas, cristãos, hindus e sikhs, num diálogo inter-religioso em nome da fraternidade universal (30.06.2026), o grupo lefebvrista optou por ignorar essa enorme realidade e voltar-se para o passado como estátuas de sal.
No próximo mês de Outubro, Leão XIV vai encontrar-se com os Chefes das Igrejas Orientais e os Presidentes das Conferências Episcopais, assinalando os dez anos de Amoris Laetitia, a Alegria do Amor. O ponto de partida do encontro é um olhar sobre a realidade iluminado pelo Evangelho e enraizado em Cristo: «Ainda mais do que há dez anos, o nosso tempo é marcado por rápidas transformações que exigem uma especial atenção pastoral às famílias, às quais o Senhor confia a tarefa de participar na missão da Igreja de proclamar e testemunhar o Evangelho»[4]. As famílias devem ser a grande paixão da Igreja, pois são elas a fonte universal da vida humana.
3. A mãe da grande escritora, Lídia Jorge, pediu-lhe que escrevesse um livro com o título Misericórdia e, na última vez que se viram, insistiu com a filha, «para que as pessoas sentissem compaixão umas das outras». Perante esta insistência, escreveu o romance Misericórdia, sobre Deus e as feridas do mundo, que lhe deu o Prémio Camões 2026. Este romance nasceu no interior da família.
O fenómeno da terceira guerra mundial aos pedaços é, precisamente, a negação da compaixão, é um fenómeno de destruição mútua. O pensamento dominante, na actualidade, parece ser o de encontrar a forma de destruir o outro, pela economia que mata, pelo comércio bélico, pelo tráfico de pessoas.
O Papa Leão XIV está num tempo de férias em Castel Gandolfo e escolheu a companhia de cerca de 200 pessoas, em situação de vulnerabilidade social da Diocese de Roma, para almoçar no dia 11. Este gesto diz-nos que o tempo de férias não pode ser o tempo do esquecimento dos pobres.
Não há amor a Deus sem amor ao próximo e não há próximo se eu não me aproximar.
Fr. Bento Domingues in Público, 12/7/2026
_____________
[1] Cf. Jorge Wemans, 7Margens, 04.07.2026
[2] Cf. Entrevista de Tiago Dias a Pedro Góis, 7Margens, 27.06.2026
[3] Cf. Rede Sinodal em Portugal, 7Margens, 29.06.2026
[4] Cf. www.vatican.va