Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Mai. 2021) por fr. José Nunes, op

9 Maio – 6º Domingo da Páscoa - Ano B

 

As leituras da liturgia de hoje estão claramente polarizadas pela alegoria evangélica da videira e dos ramos. De resto, a segunda leitura, extraída da Primeira Epístola de S.João, afirma também a necessidade de vivermos no amor para permanecermos em Deus e Deus em nós, isto é, para que nós, varas ou ramos, possamos estar ligados, unidos à cepa ou à videira. Só então daremos fruto. Mas muito mais do que isso: só assim sobreviveremos!

O ficarmos com Jesus, o deixarmos que o Seu Espírito habite em nós, é a autêntica possibilidade de construirmos a nossa vida com sentido e podermos experimentar o divino que a vida pode ser. Ficar unido a Cristo – e a Igreja é Corpo de Cristo, é o Corpo do qual Cristo é a Cabeça – deve ser por nós assumido em duas perspectivas maiores: uma mais pessoal, outra mais comunitária.

Em termos pessoais, é importante escutarmos a Sua Palavra, fazermos a nossa oração (diálogo com Ele e por Ele), ancorarmo-nos na Sua força. Acreditamos que daí nos virá a paz interior, a luz ou orientação sábia para a vida, a coragem para enfrentar as dificuldades e tribulações. Em termos comunitários, isso significa que a nossa relação com os outros – na família, com os amigos, com os irmãos e irmãs na Igreja – é também indispensável para a sobrevivência, para experimentarmos o gozo de viver: quem consegue ser feliz vivendo como uma ilha, no isolamento? Quem consegue ser feliz sem fazer a experiência do amar a outros e sentir-se amado?

O mundo e a cultura de hoje ajudam a muita dispersão, a muita fragmentação. Há tanta oferta que a sociedade do consumo e da informação nos faz…! E nada disso tem que ser necessariamente por nós recusado! Mas o Espírito que nos há-de permitir a integração de toda essa experiência fragmentada é o Espírito Santo, o fogo de Deus em nós. Bem unidos a Ele, alimentados e iluminados por Ele, não só encontraremos o sentido para as nossas vidas como poderemos dar abundantes frutos na nossa missão quotidiana de testemunhas do Ressuscitado.

03/05/2021

Artigo do fr. Bento Domingues, op


A missa não pode ficar na missa

 

1. “Se não tens nada que fazer, não me chateies, vai à missa.” Reagir assim, em dia de semana, era o modo bem-educado de quem recusava o uso de palavrões, muito frequentes, na aldeia em que nasci. Importa lembrar que a prática religiosa pautava os momentos mais marcantes do dia. O sino tocava de manhã, ao meio dia e ao fim da tarde. As pessoas paravam e rezavam, estivessem onde estivessem. O chofer da camionete, que fazia a carreira de Braga a Terras de Bouro, tirava o boné quando passava diante de uma Igreja, da Cruz ou das Alminhas. A maioria das famílias rezava o terço, já cabeceando de sono, depois da ceia. Faltar à missa ao Domingo era considerado pecado, a não ser que fosse por razões de força maior, como a doença ou a velhice. Isto era naquele tempo.   Por muitas e variadas razões, tudo mudou naquelas aldeias serranas, em progressiva desertificação, especialmente nas situadas acima da estrada romana, a Geira. A dificuldade de alguns párocos entenderem que as metamorfoses dos valores também afectam as práticas religiosas não os ajuda a entender certas atitudes da pouca juventude que resta. De qualquer modo, nada vence os romeiros de S. Bento da Porta Aberta e, no catolicismo português, Fátima é incontornável, embora ainda não possamos saber as consequências da pandemia que fez desse Santuário um deserto.   A nível mundial, a perseguição aos cristãos apresenta, um pouco por toda a parte, um crescimento assustador. As estatísticas disponíveis dizem que, em 2020, já tinha feito mais de 340 milhões de vítimas. Na Europa, considerada cristã, parece reinar a indiferença, embora seja preciso ter em conta que o seu mapa religioso, com as migrações de todas as origens, modifica-se dia a dia.   2. Para quem continua a ir à missa, e não é tão pouca gente como se julga, escuta, no início da proclamação do Evangelho, uma expressão ambígua: naquele tempo. Digo ambígua porque, de facto, o Cristianismo não se pode desligar de Jesus de Nazaré, crucificado sob Pôncio Pilatos, a 7 de Abril, do ano 30 do primeiro século da nossa era. Mas, naquele tempo pode dar a ideia de uma religião arrumada no passado, quando a significação cristã do seu acontecimento fundador atinge todos os tempos e lugares. Cristo é nosso contemporâneo.   Esta compreensão vem testemunhada, de vários modos, nos textos cristãos mais antigos. No passado Domingo, pediram-me para comentar uma passagem do Evangelho S. Lucas: os discípulos de Emaús [1]. É uma peça de requintada beleza narrativa, que vai insinuando, passo a passo, o que verdadeiramente é estruturante na vida de uma comunidade cristã, seja onde for e seja quando for.   Os textos do Novo Testamento debatem-se sempre com uma dificuldade paradoxal: têm de mostrar que o Cristo ressuscitado é a mesma pessoa que teve uma existência terrestre e que, devido às suas opções, suscitou uma coligação político-religiosa que o crucificou. Mas surge de um modo tão diferente, na nova situação, que até as mulheres e os homens, seus discípulos, só O reconhecem quando é Ele próprio a tomar a iniciativa de manifestar a sua identidade. É o que acontece também com a narrativa dos discípulos de Emaús. Quem puder vá ver o texto de S. Lucas, que não podemos reproduzir aqui na íntegra.   Emaús era uma aldeia que ficava a 12 km de Jerusalém. Conta o texto que dois discípulos do Nazareno – um chamado Cléopas e outro sem nome –, poucos dias depois da morte do Mestre, indo a caminho dessa aldeia, enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles, como se fosse um estranho. Fez-se de curioso e perguntou-lhes: de que é que estais a falar? Ficaram desconfiados: serás tu o único a visitar Jerusalém que ignora os acontecimentos que lá se passaram nestes dias? O desconhecido tornou-se ainda mais curioso: que acontecimentos foram esses? Resposta: os referentes a Jesus de Nazaré, que era um homem, um profeta poderoso, na acção e na palavra, diante de Deus e de todo o povo, e como os nossos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e O crucificaram. Esperávamos que Ele viria resgatar Israel, mas já estamos no terceiro dia e nada.   É muito cómica a situação: são os discípulos que explicam a Jesus o que aconteceu a Jesus! É, para nós, de grande alcance: Cristo é o grande clandestino de todas as pessoas, mergulhadas nos seus problemas do dia a dia para os quais, em certas ocasiões, não descobrem qualquer sentido. Por vezes, são os próprios crentes que, em situações desesperadas, se interrogam: mas onde está Deus em tudo isto?   O segundo elemento estruturante da vida da comunidade cristã é a procura de sentido para os enigmas da existência humana. Sem interrogações que abalem as nossas certezas convencionais, não podemos caminhar escutando e interpretando os sinais de esperança semeados nas incertezas da vida.   A fé cristã não se confunde, porém, com infindáveis debates filosóficos ou teológicos. Exige nascer de novo para o acolhimento do inesperado. Quando a comunidade cristã pratica a graça da hospitalidade, é visitada pela clandestina presença real de Cristo.   O desenlace da aventura dos discípulos de Emaús, na oferta da hospitalidade a esse desconhecido, é ainda mais surpreendente. Uma vez à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o, distribui-o e aconteceu o milagre: então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no. E ele tornou-se invisível à vista deles. Enquanto o viram não o reconheceram, quando o reconheceram deixaram de o ver!   3. Neste belo conto dos discípulos de Emaús estão retratadas as componentes de uma autêntica comunidade cristã: a vida quotidiana da semana, a necessidade de a iluminar com a alegria do Evangelho e o acolhimento do outro. A celebração da Eucaristia é, precisamente, o tempo dedicado a estabelecer os laços entre todos os aspectos da vida humana, em processo de iluminação pelo reconhecimento da presença real e invisível de Cristo na vida toda [2].   Não se pode esquecer, todavia, uma outra dimensão da comunidade cristã, inscrita no final da narrativa dos discípulos de Emaús: voltaram imediatamente para Jerusalém e contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão.   A missa não pode ficar na missa. Dar testemunho, com obras e palavras, aos que a não frequentaram, é a missão dos verdadeiros discípulos. O mero consumismo religioso não é religioso.   Os cristãos não podem aceitar que se levantem muros, obstáculos, aos que, acossados pela fome ou pela guerra, batem à porta da Europa, dos EUA ou de qualquer outro país.   Como diz a Carta aos Hebreus [3], não vos esqueçais da hospitalidade, lembrai-vos dos presos, dos que são maltratados, sem perguntar qual é a sua religião, o seu credo político ou a sua nacionalidade. São nossos irmãos.   Fr. Bento Domingues in Público, 2/5/2021 _____________ [1] Cf. Lc 24, 13-35 [2] Essa presença real de Cristo na eucaristia, dizia Paulo VI, é denominada real não porque as outras sejam irreais, mas porque é real por excelência (Mysterium fidei, 41) [3] Cf. Hb 13, 1-3
02/05/2021

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