Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Mar. 2026) por fr. José Nunes, op


15 DE MARÇO - 4º DOMINGO DA QUARESMA - ANO A

 

Todas as leituras das celebrações litúrgicas da quaresma, e particularmente as do Ano A (em que estamos), têm um caracter eminentemente catecumenal. E, neste domingo, a temática está polarizada em torno da Luz, do Ver, dos modos de olhar a vida e a realidade. Quem se prepara para ser cristão (no baptismo) e quem quer ser cristão ao longo da vida, tem que aprender a ver! Tem que curar as suas cegueiras, tem que passar a ver as coisas com os critérios de Deus e não a partir das evidências humanas (já o profeta Isaías dizia que os pensamentos e juízos de Deus são muito diferentes dos nossos). E tudo isto é uma aprendizagem, supõe uma progressão, um trabalho contínuo de aproximação a Jesus – Ele que é a única Luz, Ele que é caminho, verdade e vida.

O livro de Samuel fala-nos da escolha de David para rei de Israel. Aos olhos dos homens, o escolhido para ser rei seria o mais velho ou um dos mais belos filhos de Jessé. Porém, aos olhos de Deus, o escolhido será o mais novo, um rude pastor, chamado David. Séculos mais tarde, os evangelhos vão-nos declarar que «os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos»…

Na segunda leitura, da carta de Paulo aos Efésios, afirma-se que quem se identifica com Jesus e com o Evangelho já não tem medo da Luz, da claridade, já não prefere viver nas trevas, na escuridão, justamente porque já não tem nada a esconder, já nada mais tem de que ter medo ou de se envergonhar! As suas obras até é bom que sejam vistas e admiradas.

E o trecho do evangelho de João narra-nos o extraordinário acontecimento da cura do cego de nascença. Para além do ensinamento inicial da narrativa, afirmando claramente que as doenças e o mal em geral não têm que ser vividos com culpabilidade nem vistos como consequência de um pecado cometido, e muito menos como castigo de Deus, pensemos sobretudo na progressão que o cego faz na descoberta de Jesus: primeiro vê nele um simples homem (v.11), depois já um profeta (v.17), em seguida um homem de Deus (vv.32-33), finalmente confessa-O como o Senhor (v.38). É um percurso catecumenal, muito semelhante ao da samaritana no domingo passado. O caminho do catecúmeno e do já baptizado é um processo de cada vez maior adesão a Jesus – que passa a ser o centro da sua vida.

09/03/2026

Artigo do fr. Bento Domingues, op


 AS MULHERES NO HORIZONTE DA QUARESMA

  

1. Estamos na Quaresma, cujo horizonte é a Páscoa, a páscoa da alegria. Xabier Pikaza, teólogo espanhol, publicou, no seu Blog, um texto brilhante, com o título Rumor de anjos, visão de Jesus Crucificado. As três mulheres da transfiguração[1]. Apresento, apenas, uma passagem que me parece central.

Sustenta que não existe uma tabela das experiências normativas da Páscoa, no Novo Testamento (NT), nem na história posterior, excepto as de Paulo em 1Cor 15, 3-8 e as do final dos quatros Evangelhos[2] que podem e devem ser interpretadas em diferentes perspectivas.

Um túmulo vazio, umas mulheres. Assim começa o Evangelho de Marcos, que nos leva ao sepulcro de Jesus, com mulheres perplexas, surpreendidas e, finalmente, exultantes. São o início da Páscoa. Nesta narrativa do início pascal, destacam-se as figuras de Maria Madalena, Maria de Tiago e Salomé…

É este o motivo pascal mais importante no início da Igreja: algumas amigas vão chorar ao túmulo de Jesus, com o desejo de ungir o seu cadáver. Mas o anjo de Deus diz-lhes que Ele não está lá, que não é um homem morto num túmulo. Está vivo. Ide contar aos seus discípulos que O procurem e encontrá-lo-ão na Galileia, onde proclamou a sua mensagem, preparando a vinda do Reino de Deus. Todo o cristianismo subsequente depende desta experiência das mulheres.

Os evangelistas, Marcos e João, focaram especialmente Maria Madalena e apresentam-na como a enviada, por Jesus ressuscitado, para que fosse evangelizar os apóstolos, congregar de novo todos os discípulos amedrontados com o final da vida de Jesus. Torna-se a Apóstola dos apóstolos.

Sem esta visão e experiência fundamental, não há experiência pascal. A primeira é uma experiência de fracasso, um túmulo vazio, uma questão em aberto: uma vida como a de Jesus que não cabe num túmulo, uma história de amor que não pode ser fechada e concluída, trazendo alguns aromas ou flores a um túmulo… Ao mesmo tempo, trata-se de uma experiência de vida (de amor) que permaneceu inacabada, que pede uma resposta, uma continuação.

Não tendo em conta o testemunho destas experiências do início, inventam-se pseudo razões para justificar uma evolução que nada tem de ajustado a essas experiências e que levam a posições delirantes. O Papa João Paulo II foi até à declaração, como definitiva, de que a Igreja não tem autoridade para ordenar mulheres ao sacerdócio[3].

Agora, as mudanças que foram operadas, durante o pontificado de Francisco (2013-2025), e o que o impediu de ser consequente até ao fim foi essa declaração. No entanto, essa negatividade não podia resolver o problema das mulheres na Igreja porque até a discussão deixou ter qualquer eficácia: as mulheres, na Igreja, tiveram um passado muito pequeno, ainda não têm presente nem futuro. A questão não é resolvida com a nomeação para os Dicastérios do Vaticano.

Seria um erro desvalorizar essas nomeações. No entanto, a distância da situação oficial pré-Vaticano II e a situação actual é algo que começa a trabalhar as consciências: haverá, por acaso, um baptismo para homens e outro diferente para as mulheres? Não existindo baptismos diferentes, essa realidade coloca, de forma oficial, a questão da igualdade. Então, não há nenhuma objecção que torne as mulheres numa situação menos cristã, menos humana que as impeça de serem ordenadas. Daí, também, a proposta de evitar o uso da palavra homem, a propósito de homens e mulheres, que acaba por tornar as mulheres invisíveis, sendo preferível a expressão ser humano.

2. Existe uma narrativa espantosa na liturgia de hoje que nos desafia: o encontro de um judeu marginal – Jesus de Nazaré – com uma samaritana pouco recomendável, junto a um poço, no pico do calor[4]. Este poço, a partir de determinada altura, pode ser designado como o local de confronto entre judeus e samaritanos.

Diz-se que, após o reinado de Salomão, Israel dividiu-se em dois: Reino do Norte (Israel, capital Samaria) e Reino do Sul (Judá, capital Jerusalém). Os samaritanos aceitam apenas o Pentateuco (os primeiros cinco livros da Bíblia) e consideram o Monte Garizim o lugar sagrado, rejeitando a centralidade de Jerusalém. A mistura de povos e a divergência de local de adoração geraram profunda inimizade entre judeus e samaritanos, sendo estes últimos considerados impuros pelos primeiros.

A arte de S. João consiste em alterar a posição de Jesus e da samaritana. Jesus está em terra estrangeira, numa situação dependente: pede água que era o que a samaritana ia procurar também. Esse pedido vai colocar a samaritana em posição superior: tu desejas uma água e não tens meios para a tirar do poço. A mulher mostra-se que está em posição superior e recorda-lhe que um judeu não deve dirigir a palavra a uma mulher e, para mais, uma samaritana. Nessa altura, nasce a questão matrimonial da samaritana. Jesus faz uma provocação: vai chamar o teu marido. Afinal, Ele já sabia que não tinha marido, mas já tinha passado por cinco. Jesus revela a situação dela sem se conhecerem de lado nenhum. Dão a impressão de que Jesus e a samaritana estão sempre a desconversar, saltando de assunto para assunto, sem linha de conversa e a entenderem-se cada vez mais profundamente.

Foi Jesus quem quebrou a animosidade inicial, mas a samaritana acaba por se esquecer do que foi fazer ao poço, sentindo-se perfeitamente compreendida por aquele judeu que desloca a religião do Templo de Jerusalém e do monte Garizim, para o culto do Pai, em espírito e verdade. Pressente que está a nascer nela uma fonte de eternidade, uma outra religião, um futuro novo.

3. Os discípulos de Jesus, meio escandalizados com o cenário não entendem, como de costume, o que se está a passar. Entretanto, a mulher partiu em missão: contou a sua experiência, não como protagonista, mas para levar os samaritanos a fazerem eles próprios a sua experiência.

Esta narrativa concentra todos os temas e percursos da verdadeira evangelização: a passagem da suspeita ao diálogo, do diálogo à mútua compreensão, da mútua compreensão à alteração da rivalidade religiosa, da rivalidade das instituições religiosas a uma compreensão nova e universalizante da religião.

Como diz a Carta aos Efésios, Jesus Cristo é a nossa paz. De ambos os povos, fez um só, tendo derrubado o muro de separação e suprimindo, na sua carne, a inimizade (2, 14).

S. João fala de sinais. Termina o Evangelho dizendo que muitos outros sinais realizou Jesus na presença dos discípulos, não escritos neste livro. Mas estas coisas foram escritas para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida eterna em nome dele[5].

Hoje é o Dia Internacional das Mulheres. Para quem desejar conhecer a relação de Jesus com as mulheres, de forma bem documentada, aconselho o livro de A. Cunha de Oliveira, Jesus de Nazaré e as mulheres. A propósito de Maria Madalena, Instituto Açoriano de Cultura, 2011.


Fr. Bento Domingues in Público, 8/3/2026 

_____________ [1] Religión Digital, 26/02/2026 [2] Mc 16; Mt 28; Lc 25 e Jo 20-21 [3] Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, 1994 [4] Jo 4, 1-42 [5] Jo 20, 30-31
08/03/2026

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