Artigo do fr. Bento Domingues, op


O impossível pode acontecer

 

1. Em Guimarães, de 7 a 12 de Março deste ano, além de outros programas, a Biblioteca Municipal dedicou o Festival Literário, Húmus, a estudar Raul Brandão, uma das suas glórias. Participei, no dia 9, com Alberto S. Silva, numa Mesa de Debate sobre As Cruzadas vistas dos dois lados, moderada por Pedro Vieira. Estava anunciada nestes termos: “Durante séculos, cristãos e muçulmanos lutaram pela posse do território. Da época do Al-Andalus, seguido do período da Reconquista, às Cruzadas dos séculos XI a XIII, estes movimentos influenciaram em muito a história de Portugal e da Península Ibérica. Mas todas as histórias têm dois lados. Como são interpretados os factos históricos dos dois lados da barricada?”

Esta interrogação envolve séculos de grandes realizações, destruições, confrontos, períodos de entendimentos e muita violência. As religiões foram texto e pretexto para alternadas dominações políticas, económicas e culturais. Não se pode esperar muito de uma mesa de diálogo amistoso com um tempo necessariamente limitado. Mas o tema devia tornar-se incontornável. António Borges Coelho ajudou-me a vencer a minha ignorância [1].

Apesar de tudo o que permanece oculto, até os mais cépticos concedem que o passado, quanto mais estudado, mais desmitificado. Esta é a tarefa dos historiadores, com os seus métodos de investigação e interpretação. O proveito é para todos os interessados em saber donde viemos [2].

Não podemos deixar que os confrontos entre religiões durmam o sono dos arquivos, memórias de outras épocas enterradas. Somos hoje testemunhas de tragédias que continuam a desenhar mapas de sangue e crueldade. Podemos e devemos admirar castelos, fortalezas e prisões de tempos guerreiros por razões de ordem estética, científica e moral. Mas agrada-me sempre mais ver, nas relações de Portugal com os reinos de Espanha, castelos e fortalezas transformados em pousadas, do que apenas testemunhos de ignorâncias e ressentimentos não resolvidos.

É preferível deixar para os vindouros gestos, monumentos, tratados de paz, do que a tristeza de não nos reconhecermos nas nossas irredutíveis diferenças. Passar de um mundo de afrontamentos para uma época de cooperação é o grande sonho de quem não é louco. À epidemia ideológica de vários nacionalismos é preciso responder com realidades e gestos criadores de esperança activa. No momento, em que as narrativas de corrupção tendem a criar a ideia do inevitável, importa encontrar os meios, as práticas e a cultura de que o normal, o mais corrente, é a honestidade pessoal e a observância das boas regras nas instituições públicas e privadas.

Nesse caminho, deparamos com pequenos e grandes sinais. No campo católico, nunca poderei esquecer os gestos e as atitudes de coragem de Papa João XXIII que desejava, dentro e fora das Igrejas, suscitar uma corrente universal de seres humanos de boa vontade. Enquanto europeus, como podemos esquecer os confrontos monstruosos de duas guerras mundiais, os muros levantados, os muros caídos e os reerguidos? A situação actual dá a impressão de que os europeus se cansaram de 74 anos de paz e, agora, dão passos para barrar os caminhos da cooperação no desenvolvimento de todos. Parecem apostados em regressar, com novos moldes, a uma época de insensatez, em nome de um nacionalismo vesgo.

2. O que me interessou em Guimarães, e que sempre me acompanha, é procurar entender um grande tema da Quaresma: as tentações que assaltaram o projecto libertário de Jesus [3]. S. Lucas observa que a condição humana, reafirmada em Jesus, é uma condição sempre tentada. Estamos sempre a ser solicitados para caminhos cegos. Não bastam uns exercícios espirituais para nos julgarmos confirmados em graça.

É uma banalidade dizer que só cada um sabe aquilo que o tenta, o que o leva a enganar-se acerca do que é melhor para a sua vida e para a felicidade dos outros. Se a natureza, como dizia Tomás de Aquino, na maior parte dos casos, bate certo, o ser humano parece que, na maior parte dos casos, segue a rota dos seus apetites desorientados, sem cuidar do que interessa à sua realização verdadeiramente humana [4]. As grandes tentações que percorrem a história humana são do tipo das que envolveram Jesus Cristo, na sua vontade de virar o mundo do avesso. A figura do Diabo, como sabemos, é a expressão da ruptura com os grandes sonhos da humanidade. Troca o desejo de servir, o desenvolvimento harmónico de todos pela vontade de dominar. Seja na família, na escola, na freguesia, na empresa, no conjunto do país o que muitos procuram é o poder de dominar, de submeter os outros aos seus interesses mais ridículos. Importa ter boas leis, ter um bom sistema de saúde, de educação, de regime político, mas se aqueles que devem servir o interesse comum se aproveitam para fins privados o que é de todos, quem manda é o poder de corromper ou de se deixar corromper.

3. Neste século XXI revelou-se no mundo do sagrado, ou assim julgado, algo de muito banal: nas religiões, nas Igrejas e no interior de cada religião e de cada igreja, a vontade de dominação continua a corromper o que, em cada uma, há de melhor. Em nome de causas sagradas sacralizam-se as astúcias da corrupção, muitas vezes, dentro de uma congregação religiosa, de uma comunidade, de uma paróquia, de uma diocese e até dentro do Vaticano se desvia o rumo para que estas instituições nasceram. Mas não há só crimes a lamentar!

Aconteceu o que nunca se julgou possível. Já toda a gente ouviu falar dos diálogos ecuménicos entre as Igrejas cristãs e de diálogo inter-religioso entre as diversas configurações religiosas, quer a nível local, quer global. Nesses acontecimentos de diálogo inter-religioso o mais frequente é o aproveitamento para cada um dos intervenientes mostrar a excelência da sua organização. São todas tão boas que nem se percebe porque é que não dialogam mais. Esquece-se que esses encontros deviam ser também de autocrítica e de procura de caminhos de cooperação, não para prestígio dessas organizações, mas para bem dos que mais precisam.

O que parecia inacreditável aconteceu! Em Abu Dhabi, o Papa Francisco e o Grão Imame de Al-Azhar Ahmad Al-Tayyeb assinaram um compromisso de desenvolver um processo que leve católicos e muçulmanos a lutarem pela defesa da Casa-Comum e de toda a humanidade. Que as religiões cuidem das religiões nem sempre acontece, mas seria o normal. Agora, que as religiões digam que não é para cuidar delas que existem, vai obrigar crentes e não crentes a perguntar: então para que é a religião?

 

 

Fr. Bento Domingues                                                                           in Público, 17/3/2019

 

[1] Portugal na Espanha Árabe, 3ª edição revista, Caminho, 2008
[2] António Borges Coelho, Donde Viemos - História de Portugal I, Caminho 2010
[3] Mt 4, 1-11; Mc 1, 12s; Lc 4, 1-13; 1Pd 5, 8-11
[4] Summa Theologiae, I q.49, a.3 ad 5


 

20/03/2019

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