Artigo do fr. Bento Domingues, op


Advento de um Mundo Outro

 


  

1. Este ano avizinha-se do fim, mas a importância dos acontecimentos que o marcaram e as questões que suscitou não encontraram verdadeiros caminhos de solução. Será trabalho para os próximos anos, se não quisermos que tudo fique cada vez pior.

Assistimos, durante este mês de Novembro, a uma espécie de aceleração da história. Entre as muitas coisas que aconteceram é importante lembrar algumas que não ficaram registadas nos grandes meios de comunicação.

 A Rede Europeia de Religiosas contra o Tráfico e Exploração (RENATE), reunida em Fátima, de 13 a 18 de Novembro, em assembleia geral, fez notar que são milhões as vítimas de tráfico humano. Como as ajudar? Como as proteger? A pandemia de Covid-19 e o consequente surgimento de novos tipos de tráfico e exploração vieram mostrar que há um trabalho enorme a fazer, sobretudo em termos de prevenção[1].

No Porto, cidade de pontes, de 11 a 13 também deste mês, realizou-se o Encontro Internacional de «Juntos pela Europa» (JpE), composto por movimentos/comunidades cristãs com o tema Novas Coordenadas Culturais e Espirituais da Europa. Como observou um dos organizadores, Júlio M. da Fonseca, é trágico que estejam a lutar cristãos contra cristãos. É trágico que esta guerra seja, de alguma forma, consequência da separação histórica entre os cristãos. Como disse Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Sant’Egidio, «se foi na Europa que os cristãos se separaram, é na Europa que devem voltar a encontrar-se», nas suas respeitáveis diferenças.

A Assembleia da República mostrou-se muito sensível e reconhecida ao trabalho de várias associações e movimentos com destaque na atribuição da Medalha de Ouro a «João 13», Associação de Apoio e Serviços a Pessoas carenciadas. Na origem do nome desta Associação está o Evangelho e, em concreto, o capítulo 13 de S. João, ao narrar a Última Ceia de Jesus, com o inspirador rito do lava-pés.

O Movimento de Renovação da Arte Sacra homenageou, com diversas iniciativas, Nuno Teotónio Pereira, no centenário do seu nascimento. Não foi apenas um impulsionador e realizador da renovação da arte sacra. Foi também um grande impulsionador da renovação do catolicismo português, mediante muitas iniciativas. O seu contributo precisa de ser mais conhecido.

António Guterres, Secretário Geral da ONU, tinha alertado para a realidade em que nos encontramos e que muitos não reconhecem. «Estamos na autoestrada para o inferno com o pé no acelerador». No final da COP27, Guterres lamentou a falta de ambição da 27ª Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas no que diz respeito à redução das emissões: «Precisamos de reduzir drasticamente as emissões [de gases com efeito de estufa] agora – e essa é uma questão a que esta COP não respondeu».

A Arquidiocese de Braga celebra os 450 anos da criação do Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo e as comemorações, iniciadas a 04 de Outubro de 2021, prosseguiram, agora, com o Congresso Internacional intitulado Erguendo os olhos e vendo, sobre a problemática actual dos Seminários Católicos. Entre mais de 20 oradores, escolhidos pela sua relevante produção bibliográfica, iniciativas, projetos e missões que desempenham, é de destacar: Hervé Legrand, O.P. (vice-presidente da Academia Internacional de Estudos Religiosos), Cristina Inogés Sanz (teóloga leiga nomeada pelo Vaticano para a Comissão Metodológica da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos), Alberto Melloni (historiador italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha) e Céline Béraud (diretora dos Estudos da EHESS – École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris)[2].

Não sei qual foi a adesão dos outros Seminários portugueses a esta extraordinária iniciativa. O que mais conta é verificar que deixou de ser uma questão tabu. Como destacou o cónego Joaquim Félix, os frutos colhidos nestes quatro dias foram «de diálogo aberto, sem clichés, mas com questões fortes»[3].  Ficará sempre como uma grande referência para futuros debates e políticas eclesiásticas. Parabéns a todos os intervenientes.

Um acontecimento surpresa foi o alagamento do tempo do Sínodo. O Papa Francisco anunciou, a 16 do passado mês de Outubro, que o Sínodo católico sobre a sinodalidade terá duas assembleias decisórias e não apenas uma: a primeira em Outubro de 2023, já prevista, e a segunda em Outubro de 2024. Qual a importância desta decisão? A Igreja faz-se e renova-se, não a partir de espectáculos de publicidade, mas através da vida concreta das comunidades cristãs, em processos de conversão, capazes de abrir caminhos de futuro, comunidades de Advento.

2. Em termos litúrgicos, estamos a celebrar o 1º Domingo do Advento. Não é por acaso que o ponto 1 desta crónica está semeado de situações e realizações que imploram um Advento, uma esperança activa que as transfigure. Não somos pessoas nem comunidades satisfeitas nem resignadas com a situação presente das sociedades e das igrejas. O dia a dia pede, não apenas uma abertura a um futuro diferente, mas um trabalho que o torne possível. Somos de muitas gerações e nenhuma delas foi capaz de resolver, de forma concreta, uma orientação segura para as incógnitas que se avizinham: as questões climáticas, as da guerra e da paz, as da pobreza e da miséria, as das desigualdades abissais da sociedade, a nível nacional e internacional.

Tudo o que foi apontado, no ponto 1, diz algo de muito belo: não estamos resignados, nem apenas indignados. Há manifestações que se esgotam na simplificação de alguns slogans. Não são fruto de um trabalho em profundidade que ligue as originalidades de cada geração.

Quando se fala de Advento, em termos litúrgicos, quase parece a marca de uma preparação do Natal. Se assim fosse, a publicidade comercial era mais certeira, não se deixa surpreender, cria os seus próprios objectos. O Advento revela que Deus não está fixado em nenhum tempo e em nenhum lugar: Deus vai vindo, vai acontecendo no tecido da nossa vida. Quando se fala da teologia dos sinais dos tempos, indicamos que Deus não está arrumado numa eternidade, indiferente ao que vai acontecendo. As experiências de transcendência não são uma fuga deste mundo. Somos filhos da contínua incarnação de Deus.

3. O Advento e o Natal do ano passado não são os mesmos deste ano, porque nós também não somos os mesmos do ano passado. A realidade está sempre em devir. No entanto, o profeta Isaías já sonhava com uma era, na qual, os instrumentos de guerra seriam transformados em meios de desenvolvimento para todos: converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices e não haverá mais exercícios de preparação para a guerra[4].

S. Paulo diz-nos que chegou a hora de nos levantarmos do sono. A noite vai adiantada e o dia está próximo. Não dominamos as incógnitas do futuro. Temos de nos preparar para todos os desafios que não nos pedem licença para acontecer[5].

 

 

Fr. Bento Domingues, O.P. 

 

27 Novembro 2022

[1] Cf. 7Margens, Clara Raimundo, 21. 11. 2022

[2] Cf. 7Margens, Clara Raimundo, 15. 11. 2022

[3] Ecclesia. 17.11.2022

[4] Is 2, 1-5

[5] Rm 13, 11-14; Mt 24, 37-44

27/11/2022

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